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Co-imaginar

Antes da Encanteria, de Elena Meirelles, Gabriela Pessoa, Jorge Polo, Lívia de Paiva e Paulo Victor Soares

Um rosto nos encara. Logo ele é seguido por outros. Os rostos nos devolvem um olhar. Ser confrontado pela frontalidade da aparição de um rosto nos remete a algo da ordem de um chamado. Mas não se trata de chamar para o já sabido ou já esquadrinhado. Aqui se convoca para a noite e para o mistério. É na noite que os gritos seguem truando no meio do mundo, os corpos convocam forças ancestrais, e um punho cerrado lampeja de modo discreto – não ostensivo, mas firme na sua intensidade. A lua e a fogueira. Qual o tempo que as chamas inauguram, qual a vida por vir na agitação da praça? Antes da Encanteria nos anuncia que não há experiência do presente sem luta, que não há tensão com o vivido sem afirmação das faculdades da imaginação. E acima de tudo, o filme nos mostra que imaginar se faz em companhia. Como se colocar no encontro com o outro, senão produzindo imaginação junto com ele?

Experimentar a cena de aparição desses corpos é indissociável de todo um extracampo de relações que permite justo a emergência desses mundos imaginados. Dizendo de outro modo: podemos considerar como incrustada nas formas fílmicas a própria tessitura mobilizada para fazer o cinema acontecer, essa trama em rede que se faz no encontro de dois coletivos, o dos realizadores e o dos artistas da cidade de Icó, no interior do Ceará. Osso Osso e Chá das Cinco se colocam juntos aqui, na aventura de inventar modos de ocupar uma cidade. E quando o cinema vem se introduzir nesses processos de experimentação do espaço, ele se faz na íntima contaminação com os movimentos já em curso nas vidas dos filmados. É a experiência toda que se faz no embaralhar das posições e dos registros, a ponto de já não ser importante demarcar mundos, porque é na zona do limiar que somos colocados. É tanto a vida que faz jorrar a cena, quanto a cena que vai incidir diretamente nas formas de vida. Aqui as artimanhas da ficção dizem respeito radicalmente a uma tática de se relacionar com o mundo e de constituir um pouco de possível frente ao que constrange os corpos. Dupla condição de uma ficção do real: ela é o documentário das próprias aventuras de imaginar junto e é também uma espécie de infiltração maquínica de um mundo performado num mundo vivido, na região do indiscernível.

O cinema pode se transformar nessa máquina de produzir agitação, transbordamentos e fábulas. Se há uma mistura de registros a percorrer toda a escritura, isso repercute numa coabitação de tempos e de coreografias. A tonalidade mitológica de alguns gestos convive com a ritualidade cotidiana, que não deixa também de se produzir como cena. O tempo do rito, o tempo do mito. As travessias de Antes da Encanteria nos fazem penetrar um portal do tempo, percorrer o obscuro da noite e sentir o crepitar da chama, fulgurante na sua potência de clarão. A lua nos olha, como nos olham os rostos. Se o tempo dos lampejos dão outras condições para a resistência de todos os dias, é porque estamos aqui, efetivamente, conectados a uma espécie de agência coletiva, não só dos humanos, mas de uma infinidade de forças que nossa vã consciência desconhece. O portal do tempo para o qual somos tragados não nos permite considerar os motivos figurais em jogo como estruturas simbólicas ou metafóricas. Se o tempo do delírio cria relações radicais com o tempo da conversa cotidiana, é porque a alquimia do chá nos mostrou que as nuvens, a terra, as árvores e as chamas formam um heterogêneo caldo que fará advir outra potência sensível para os corpos, postos em outras escalas e proporções com a cidade, metamorfoseados como megazords ou como guerreiras de rostos pintados, telas nas costas, em cavalgada das motocicletas.

É como se fosse preciso perceber todo esse conjunto de aparições como uma só pulsação a se espraiar pelo chão de Icó, fazendo tremer o corpo em dança, da mesma forma como as nuvens povoam o céu, enquanto ouvimos a narração de um conto. Pratimba e Queroba surgem pela voz da narradora, como se o ato mesmo de narrar fosse aqui evocado como a gênese de um outro chão e de um outro tempo. É quase como se estivéssemos diante da lenda sobre os ancestrais daqueles que virão, ao mesmo tempo em que esse mito é convocado para o agora, lambendo a cidade de prédios históricos imponentes e de peso opressor sobre os corpos que fazem uso desse espaço. Pratimba e Queroba são, então, como que deslocados da chave da pré-história e da circularidade do mito para a imanência da lambida.

A imaginação vem fazer cena no real, intervir nele, se contagiar por ele e torcê-lo. E o real mesmo, por seu lado, poderia adquirir aqui outros sentidos. Há uma realidade concreta na vida que se performa. O real emerge a partir da inscrição de uma presença dos corpos. Ele surge como rasura, rasgo que acende na escuridão a energia do gesto. Seja quando se entoa um canto ou quando se toma uma sopa de dentes, é a marca sensível desses gestos e desses sons que parece anunciar aqui uma forma de presença, uma morada para o olhar se deter por um instante, para o corpo do espectador ser também envolvido na densidade do que acontece. Se as performances têm essa força do real, é porque elas também se inserem no mundo com a potência de variar uma cidade. Uma tela, o corpo veste. Arrancada do lugar onde estava guardada, ela vai ser incorporada – incorporar: trazer para o corpo. Talvez não haja testemunho maior que esse para constatar uma questão fundamental: Antes da Encanteria nos faz ver o gesto da criação como parte completamente imbricada ao gesto do viver. O cinema só tem sentido se for modo de constituir relação, de instaurar o espaço da cena como lugar da companhia – entre sujeitos, entre nuvens e fogueiras, entre a lua e o chão.