TORNAR-SE HEROÍNA

12 jun. 2018

Por Camila Vieira

A Feiticeira Viúva (Xiao gua fu cheng xian ji, 2018), primeiro longa-metragem do chinês Cai Chengjie, narra a história de uma mulher que, após ser violentada e desabrigada, começa uma jornada de heroína. Ela é jogada diante de tal situação com a qual ela precisa lidar, mesmo que à revelia. Wang Erhao passa a ter poderes – de cura, de regeneração, de transformação –, mas ela está bem distante de ser considerada uma super heroína pela sua própria comunidade. Erhao é logo classificada como uma bruxa – uma nomeação bastante simbólica, posto que bruxas foram queimadas e eliminadas ao longo da história por serem vistas como a representação do mal.

Pela vida singular trágica de Erhao, os outros não demonstram qualquer indício de empatia. Ela é estuprada, sua casa é incendiada e seu marido morre. E tudo parece dentro da normalidade. Ela pede ajuda e não é ouvida: precisa do dinheiro que o marido emprestou a um vizinho, mas é ignorada; precisa de um lar para morar, mas continua a viver em um trailer, ao lado do cunhado de 10 anos. O olhar da comunidade para Erhao só irá mudar quando ela cura um idoso, ao dar banho nele a contragosto com um caldeirão de água quente.


A direção de Cai Chengjie é bem irônica no momento em que os homens cercam Erhao para celebrar o poder de cura dela. A cena é colorida, diferente do predominante preto e branco do filme. Em uma mesa farta de pães, sete homens estão sentados ao redor de Erhao, que ocupa o centro do quadro. Ao fundo, um vitral colorido. A encenação remete ao quadro A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Depois de uma longa conversa com os homens que afirmam o poder de bruxaria de Erhao, enquanto ela só quer saber onde vai dormir naquela noite, a nova heroína constata: “Quando estou mal, eles cospem em mim. Quando estou bem, eles se ressentem de mim”.

Erhao não é nada ingênua. Ela encontra uma mulher, que está grávida do sexto bebê e não sabe como irá cuidar dele, porque será mais uma menina. Na promessa de transformar o sexo da criança, Erhao exige que o marido cumpra à risca as seguintes missões: não violentar mais a esposa, cozinhar e limpar a casa, não xingar ou agredir ninguém da família e cuidar bem das crianças.


Ao longo das ações de Erhao como feiticeira, é evidente como Cai Chengjie deseja construir uma fábula com uma crítica social ao patriarcado, onde os homens são violentos e gananciosos. Tal como o criminoso que encontra ouro, após o feitiço de Erhao e oferece cinicamente um casamento com ele como forma de agradecimento. O ridículo da proposta é enfatizado pela forma como Erhao escuta calada o que o homem diz, mas como se estivesse indiferente à tagarelice dele, enquanto faz sua refeição.


Como qualquer outra fábula, o desfecho será trágico. A magia se desfaz, como as breves imagens coloridas do filme: os sonhos, os fogos de artifício, as brasas do carvão, o pisca-pisca do trailer. A estupidez do homem acaba sendo maior que qualquer crença em mudança. Só resta à feiticeira abandonar sua vocação, diante de uma realidade cruel que ela não tem como impedir.

 

REVISTA SOBRECINEMA