O completo estranho (2014), de Leonardo Mouramateus

27 jan. 2014

Por Érico Araújo Lima

DANÇAR COM UM FILME

“Fortaleza é a maior cidade pequena do mundo”.


Quando vejo O completo estranho, de Leonardo Mouramateus, já é impossível deixar de pensar em toda a pulsação de dança que o cinema do realizador parece pesquisar. Uma sensação atravessa todo esse filme, uma curva de intensidades, variações em torno do que pode o corpo e de como vibra a imagem. A festa tomou conta do filme. É como se ele todo fosse uma balada, do começo ao fim, ainda que com alternâncias entre momentos de velocidades maiores e menores. Mas é justo na orquestração desses modos, é exatamente na maneira de modular, que se constitui todo o ritmo desse filme mais recente de Mouramateus.


Se vêm aqui algumas palavras talvez mais ligadas a outras artes, isso não é à toa, sobretudo ao se tratar do cinema em questão. É um cinema da coreografia, em estreito diálogo com a dança; é um cinema de música, um cinema profundamente contaminado por ritmo, melodia e harmonia. Trata-se, então, de compor e de engajar o corpo em um movimento. Já no próprio gesto de fazer sexo que abre o filme, acompanhado por música, cadenciado pelos efeitos das sonoridades, vem uma pegada na coxa. Somos lançados, já de entrada, no contato de dois corpos em movimento. E daí o convite vai para que nos integremos a um coral – tanto de vozes quanto de corpos.


É que há uma festa. Assim, de repente, no meio da noite, uma festa chama. O convite é da amiga que precisa de ajuda, mas o que parece decisivo aqui é mais esse movimento, o de mergulhar na noite e partir ao encontro do desconhecido. A noite tem seus mistérios e riscos, e quando o próprio filme trabalha nessa região arriscada, é ele mesmo que também se revela disposto a pesquisar, a sair do que estaria certo e seguro, para enfrentar uma zona de potencialidades. Em outros filmes de Mouramateus, essa investigação surge tomada de forma aberta pelo próprio corpo urbano, materializado na paisagem, nos seres, em espaços que precisavam ser inventados. Aqui a cidade é vislumbrada. Nas poucas vezes em que aparece, ela está no fundo da imagem, desfocada. Talvez ela esteja, sobretudo, no extracampo, ora arrastada pelos corpos dos personagens, ora convocada de forma indireta, na própria festa que se torna também espaço de cidade.


São traçadas figuras de luzes e de tonalidades no espaço. Um lugar é inventado pelas intensidades luminosas que ele pode produzir. Outra arte, então, pode ser convocada, a pintura: é que o uso de cores tem todo o investimento na elaboração das formas, na reunião de forças em torno dos seres que dançam e cantam. Toda uma ondulação, flashes, tons, linhas. Um rosto nos olha e reúne toda a potência de nos interpelar com esse olhar. É como se o plano pudesse ser agora carregado de uma energia. A potência do quadro tornou-se reverberação do pathos do rosto.


E falar de quadro aqui é sempre falar de pelo menos dois, um visual, outro, sonoro. Todo um trabalho com o som faz surgir também um espaço contíguo, uma adjacência de vozes que cantam, que acompanham o diálogo de dois personagens em outro lugar. A orquestração faz com que as vozes não estejam ao fundo, mas ao lado. Não é uma música incidental, não é trilha que preenche a cena, são vozes que vêm das laterais para fazer outra cena e se juntar àquela que ocupa o visível.


Alegria de um encontro no escuro. Dois estranhos que conversam, travam um diálogo que faz uma curva no filme. Palavras que poderiam ser improváveis, mas que parecem afirmar aos poucos as próprias condições de efetivação na imagem. Palavras repentinas. Dois estranhos que talvez já se conheçam, que devem ter se visto em algum momento, mesmo que de relance, na maior cidade pequena do mundo. São dois completos estranhos que, por um breve instante, na varanda ou na lavanderia, talvez possam encontrar entre eles um espaço-tempo comum.


 

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