O TRAUMA DO EXTERMÍNIO

Kairo (2018), de Fabio Rodrigo

Los Silencios (2018), de Beatriz Seigner

16 set. 2018

Por Camila Vieira

Há dor permanente e ausência inelutável quando se perde um familiar, um amigo ou qualquer pessoa querida em uma guerra. Para quem sobrevive, o que ainda é possível narrar quando tantos outros morrem todos os dias? O horror do extermínio impõe o silêncio a atravessar os corpos. Exibidos em uma mesma sessão do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o curta-metragem Kairo (2018), de Fabio Rodrigo, e o longa-metragem Los Silencios (2018), de Beatriz Seigner, desenvolvem narrativas ficcionais realistas a partir do trauma dos conflitos armados contemporâneos, respectivamente a intervenção policial nas periferias do Brasil e os confrontos entre guerrilheiros e paramilitares na Colômbia.

Em Kairo, o ambiente opressor e impessoal da escola não é muito diferente de uma prisão: os corredores vazios, as portas com grades, as paredes em azul e branco. A assistente social Sonia entra na escola e pede licença à professora para levar o menino Kairo. Os dois são negros e, no percurso de saída da sala, outra criança urra um som que imita o guinchar de um macaco. O racismo não é combatido pela própria diretora da escola, uma mulher branca que trata a situação de Kairo com indiferença.

A imagem intimidadora da polícia é anunciada tanto pela presença da viatura que permanece na entrada da escola quanto pela desconfiança de Kairo em acreditar que Sonia é uma policial que veio capturá-lo. Kairo sempre fala sobre sua família: a necessidade de voltar cedo para cuidar da irmã, a dificuldade financeira da mãe. Sonia diz se identificar com o menino, porque “tem coisas que nunca mudam”. A assistente reluta em informar o garoto sobre a tragédia, que permanece fora de campo ao longo de todo o filme.

Durante os diálogos entre Sonia e Kairo, o filme opta por enquadrá-los em planos de conjunto ou gerais – algo que reforça a posição de igualdade entre os personagens. Tal enquadramento só muda quando a polícia é mencionada ou intervém no espaço cênico: o noticiário que informa sobre a operação policial no bairro de Kairo e os dois policiais que obrigam a assistente a devolver o menino.


Após uma elipse que coloca a narrativa em suspensão, os close-ups em Sonia e Kairo enfatizam seus olhares de impotência e desolamento. Os dois personagens são sobreviventes do extermínio sistemático da população negra, pobre e periférica no Brasil. A cartela final com a frase de Marielle Franco, vereadora negra executada a tiros no Rio de Janeiro, ecoa de maneira contundente: “Quantos mais ainda precisam morrer para que essa guerra termine?”

A mesma pergunta acaba por reverberar em Los Silencios, que parte do drama de famílias de guerrilheiros colombianos em confronto com paramilitares. Amparo foge com seus filhos Núria e Fábio para uma região na fronteira entre Colômbia, Peru e Brasil. A família chega de barco em viagem noturna até a Ilha da Fantasia, que abriga outros imigrantes refugiados. O pai da criança é um líder comunitário dado como desaparecido, após o desabamento em área de ocupação de moradores que estavam sendo despejados para construção de uma petroleira.

Fábio é o filho mais novo, que reluta em cumprir as ordens de Amparo. Núria marca presença silenciosa ao lado da mãe. Los Silencios dedica boa parte dos planos a enquadrar o rosto da menina, que olha com tristeza ou preocupada para a mãe. Amparo esforça-se para conseguir emprego na ilha, manter Fábio na escola e buscar ajuda para conquistar a indenização pelo desabamento. Da mesma forma que Kairo, o longa de Beatriz Seigner deixa fora de campo a tensão dos conflitos armados e concentra o olhar nos pequenos gestos de sobrevivência de Amparo.

Aos poucos, o realismo social de Los Silencios se mescla a uma dramaturgia fantástica, que lembra o estilo de alguns filmes latino-americanos contemporâneos, como A Teta Assustada, da peruana Claudia Llosa, e La Sirga, do colombiano William Vega. A aparição repentina de urubus no céu, o murmúrio do vento a balançar as lonas das palafitas e os adereços em cores neon começam a preencher a atmosfera fantasmagórica do filme. Se a justiça ainda está longe de ser alcançada para as vítimas de conflitos armados, é preciso ao menos respeitar a memória dos mortos.

 

REVISTA SOBRECINEMA