A Batalha da Maria Antônia (2014), de Renato Tapajós

27 jan. 2015

Por Érico Araújo Lima

BATALHA EXPLICADA

Na conversa com um filme, o desafiador parece ser, em muitos momentos, a postura de estabelecer um diálogo que mergulhe nas bases do gesto projetado no mundo pela obra. Tomando as próprias sustentações daquilo que propõe o trabalho, cabe interrogar de que maneira as matérias expressivas arranjadas potencializam ou despotencializam uma experiência de cinema. Se nosso lugar de vista e de corpo pode estar mais afeito a articulações diferentes, é fundamental empreender o esforço de traçar a interlocução em trama com os fios tecidos pela obra. Interlocução que pode, nas bases da proposta do filme, colocar também a possibilidade de crises. Pode se tratar, fundamentalmente, de uma postura que se coloca no encontro com as diferenças. Feita essa ressalva, seria possível aqui exercitar o contato com a escritura de A Batalha da Maria Antônia, de Renato Tapajós, e tentar costuras a partir dos intercâmbios que o filme opera entre cinema e memória, entre documentário e testemunho da experiência histórica.


O esforço, nesse caso, perpassa um discurso em que o realizador recorre ao modelo do depoimento de atores históricos para retomar um acontecimento do passado. O filme se interessa em possibilitar ao espectador do presente o acesso às informações sobre processos de resistência política à ditadura militar. O foco desse sobrevoo histórico é a rua Maria Antônia, em São Paulo, palco do confronto a que se refere o título do filme, quando estudantes da Faculdade de Filosofia da USP entraram em conflito com os da Faculdade Mackenzie. A luta se dava no ano de 1968, período que também é contextualizado pelas operações discursivas da obra. Ao mergulhar nessa rua, nesse espaço de batalha aberto entre dois prédios, e entre movimento estudantil de esquerda e as forças repressoras do regime militar, o filme declara e explicita um interesse em reconstituir fios de memória para pensar a gestação do presente. Esse empenho do filme faz surgir ainda um agregado de materiais de arquivo, trabalhados e retrabalhados nas operações de montagem, seja quando são destacados aspectos de uma fotografia, seja nos atos de colocar em relevo trechos de jornais que situam os eventos com as palavras sublinhadas nas imagens. Todo um conjunto de vozes, matérias e fontes históricas é alinhavado segundo um gesto explicador da experiência histórica.


Explicar torna-se aqui a postura decisiva de A Batalha da Maria Antônia. Trata-se de fazer compreender as articulações políticas dentro do movimento estudantil da época, de tornar palpável a conjuntura, de apresentar a história como dado para uma tomada de consciência do que se passou. Essa figura da explicação se acentua conforme a montagem apresenta progressivamente os pontos de vista de uma história e condensa na voz e no corpo de quem testemunha a carga da memória de uma época. Renato Tapajós opera no modelo da conexão entre causa e consequência e entrega para o espectador uma experiência de cinema que, a despeito do esforço em trabalhar contradições entre olhares, acaba se estabelecendo como bloco informacional que traça linhas contínuas entre passado e presente, fios unívocos para acessar um vivido que estaria guardado no baú.


Esse modelo mesmo de história, no qual o filme parece acreditar, gera uma construção de imagem em diálogo marcante com uma postura da reportagem televisiva, mais do que efetivamente em uma preocupação com o trabalho de invenção de formas expressivas de cinema. Dentro desse gesto explicador, o que se encontra é uma crença na possibilidade de resgate do evento imobilizado em um instante do tempo e apresentá-lo em suas conexões lógicas e em suas derivações sucessivas. A história torna-se aqui um acúmulo de etapas articuladas em progressão, e o testemunho exerce a função esclarecedora, para fazer com se veja melhor, se apreenda melhor e se conecte do modo mais imediato possível com os relatos costurados pela montagem. A constituição do contato com os lugares de memória escolhidos como matéria por excelência desse documentário – o testemunho e o arquivo – acaba privilegiando o modelo da explicação eficiente e iluminadora, aquela que acredita na imagem e no som como agenciadores de um processo de conhecimento. 


A Batalha da Maria Antônia não só investe na eficácia de um dar a conhecer, mas também em um movimento de interpretar imediatamente o agregado reunido, quando a voz do próprio realizador tenta fechar a obra em tom de considerações finais capazes de arrematar uma leitura daquilo que se passou. No retorno aos eventos de relevância histórica para a efetuação das sobrevivências ao longo dos tempos, o filme expõe uma curiosa vontade de dispersar o centro e depois reenviar o filme para esse centro, que acaba se consolidando como o próprio ponto de vista do diretor. Ele não só costura, alinhava os fatos históricos, como também empreende uma organização interpretativa, por meio da palavra – da voz sobreposta às imagens – e também do corpo que surge em cena em um breve momento de revisita presencial ao próprio lugar dos eventos.


A postura do historiador explicador encontra a singularidade de um desejo em assinalar a narrativa pessoal, quase como se todo o gesto mais marcado pela construção informacional pudesse também ser infiltrado, em lampejos, pela vontade de constituir um documentário em primeira pessoa. É quando o filme parece encontrar os impasses de uma opção de escritura e passa também a tecer a explicação a partir da própria experiência vivida do enunciador. Há uma entrada, de maneira enviesada, em um desejo de trazer a presença do diretor para a cena, inserido de certa forma também como o professor cujo corpo, até então não visto, passa a se materializar na imagem. A gestão da eficácia da explicação encontra limites e coloca em evidência a necessidade mesma de uma conjugação mais complexa de procedimentos para tornar legível a história. De alguma forma, esse não resolvido desejo de implicação maior por parte do realizador no corpo do filme revelaria um gesto sobreposto ao gesto explicador, um outro gesto, desviante e um tanto estrangeiro, que pode colocar outra urgência para a fabricação desse cinema: além de tornar os rastros da história compreensíveis, caberia torná-los sensíveis e pensáveis.


 

REVISTA SOBRECINEMA