Retrato de uma paisagem (2012), de Pedro Diógenes

27 nov. 2013

Por Érico Araújo Lima

FIGURAS DO COMUM NA PAISAGEM

Há uma sequência em Retrato de uma paisagem (2012), de Pedro Diógenes, que parece bastante emblemática das potências do encontro. O mediador que o filme toma para si está em uma loja do centro de Fortaleza, fazendo provocações sobre o valor do trabalho para a vida. Ele usa o microfone do funcionário que tem por tarefa anunciar as ofertas na entrada do local. O ator Tavinho Teixeira interpela as pessoas: “Você gosta do seu trabalho?”. Respostas sempre afirmativas, sorrisos às vezes desconfiados. Ele percorre o espaço, afirma a sua posição: “Não gosto de trabalhar”. Passa a ler os rótulos das marcas dos produtos à venda e a declarar sua rejeição a cada um. E, de repente, uma mulher que trabalha ali chega, o interpela também, pega o microfone e diz: “Com licença, mas aquilo que você odeia, a gente precisa pra poder vender”. Os seres que encontramos, quando filmamos, podem sempre nos desestabilizar, trazer uma outra lógica àquela que trazemos, lançar outro mundo sensível ao mundo sensível que tentamos elaborar na escritura.


Temos um corpo que toma um microfone e fura o que o filme vinha tentando inventar como cena, temos um choque de mundos e um momento bastante singular que impõe desafio fundamental para a própria elaboração que o realizador vinha fazendo, para a própria estratégia de aproximação. É uma sequência que levanta a própria questão de como constituir uma relação, de como o filme lida com a dupla dinâmica de propor provocações e tornar-se poroso ao que os seres filmados podem retornar. 


Retrato de uma paisagem parece, nesse sentido, uma obra que expõe os próprios desafios do percurso de elaborar imagens do encontro, de aproximar-se do outro. E um filme que vai agregando camadas no percurso, com um movimento de aproximação, já explicitado nas primeiras cenas, que nos lançam em sobrevoo pela cidade, seguido depois do mergulho nas pulsações da vida urbana. O discurso, trazido de A revolução urbana, de Lefebvre, acompanha em off esse momento mais distanciado, da câmera que se coloca de cima, observando o concreto e a paisagem mais dura. Quando estamos, junto ao personagem, imersos no corpo urbano, em meio aos seres que habitam o espaço e atravessados pelas forças que o percorrem, é aí que a relação mais arriscada vai ser movimentada.


Sempre um jogo, sempre uma surpresa. É difícil, às vezes, encontrar alguém que queira falar, mas com o tempo o dispositivo começa a operar. “Se eu soubesse todas as respostas do mundo, que pergunta você me faria?”, já vai lançando o intercessor. As conversas passam pela satisfação com o trabalho, pelos sonhos, pelo desejo de liberdade. E quando Tavinho pergunta “Você é livre?” ou “O que é liberdade?”, ele parece aqui reverberar a questão e o modo de abordagem da sequência de Crônica de um verão (1961), de Jean Rouch e Edgar Morin, em que duas mulheres também surgiam como intercessoras e perguntavam “Você é feliz?”, abordando pessoas desconhecidas na rua e tentando um diálogo. Nesse sentido, Retrato de uma paisagem parece ter, como método, uma forte orientação moderna, numa tentativa de aproximação que evoca com força uma tradição de documentário dos anos 1960 e 1970, sobretudo quando parecem bem marcadas as distâncias entre o discurso do intercessor e o discurso dos sujeitos filmados.


Quando, por assim dizer, a tomada de posição do realizador passa por grandes questões e por uma tentativa de fazer a conexão, na investigação das vidas cotidianas, com uma perspectiva mais global. “A intervenção maciça dos interessados mudaria a situação”, repete em uma sequência o personagem. Ele fala isso para uma pessoa que passa e fala também para o próprio espaço. Mas é sempre, aqui de novo, o desafio do discurso no encontro com as singularidades encontradas no processo. Desafio com os discursos mais conformados, que pensam a obediência e a importância da hierarquia. E encontro com discursos que falam da importância de sonhar. Condição fundamental para o cinema: o intercessor e o próprio dispositivo precisam ser desarranjados, a todo o momento, para que o filme aconteça.


É que, assim como o urbano é lugar do enfrentamento e das contradições, parece ser impossível escapar, na escritura fílmica, também desse embate e dessa condição marcada por idas e vindas. Compor o retrato envolve perceber como a cidade se movimenta, como os corpos a habitam, como as formas se constituem. Compor o retrato tem a ver com observar os imprevistos da cena, arriscar numa conversa, inventar imagens que tornem visíveis outras possibilidades de sensação. As sobreimpressões que nos momentos iniciais aparecem na imagem talvez digam algo de uma intervenção criadora que compõe o retrato justo na relação necessária entre sujeitos e corpo urbano, que mistura os seres quaisquer entre eles, que embaralha coordenadas e faz da imagem um campo de experimentação da própria vida em comum. 


Porque seria essa talvez uma busca de fundo que perpassa o filme: como traçar figuras do comum? Aproximar-se do homem comum, na sua vida cotidiana, nos seus desejos, sonhos, nas suas definições sobre a vida. Constituir o comum, na abordagem fílmica que pensa um coletivo, que toma para si uma tarefa política de intervir na cidade, para pensar outras comunidades. Lançar-se num espaço comum possível, em que intercessor, realizador e sujeito abordado possam viver a diferença, fundamental para o estar junto na polis.


Retratar uma paisagem passa a ser retratar o homem comum. Esse homem comum cantado por Belchior, na canção que vem com força ao final, Conheço o meu lugar. A câmera filma os seres ordinários no espaço: os corpos inventam poses, posturas que se constituem como imagem, uma fotografia feita pelo cinema. “O que é que pode fazer o homem comum / neste presente instante senão sangrar? / Tentar inaugurar a vida comovida, / inteiramente livre e triunfante?”. É sempre essa uma questão central: o que é que podemos fazer? É a questão sobre a potência e sobre como fazer a passagem para o ato. Retrato de uma paisagem está sempre desejante de uma ação, de que os interessados intervenham, de que eles sejam mais inconformados com o próprio trabalho e que mobilizem novos lugares, novas sensibilidades, novos recortes do espaço e do tempo. E o que o cinema pode fazer? O que no encontro é possível desencadear? A questão sobre a potência do cinema e das imagens nunca foi tão urgente.




 

REVISTA SOBRECINEMA