Pinta (2013), de Jorge Alencar

9 ago. 2014

Por Érico Araújo Lima

MOVIMENTOS EM CONTAMINAÇÃO

Fazendo do cinema uma dança, da coreografia um procedimento de montagem e da cena uma gestualidade rítmica e intensiva, Pinta experimenta uma região de intercessões múltiplas, que encontram no movimento um ponto comum de investigação. O filme de Jorge Alencar faz as séries divergirem e, ao mesmo tempo, se cruzarem, em um espaço de cesuras mediado pela escritura do cinema. Nos contatos que se tramam, somos levados a todo um mundo de contaminações, que podem fazer intercâmbios entre procedimentos e abolir qualquer hierarquia entre formas de composição de imagem e de cena, numa constante infiltração entre campos expressivos.


Blocos de sensação, blocos de movimento. Eles perpassam a tela, seguem reverberações de ritmo e de ondulação. Um corpo que se espalha de patins por um espaço dá uma volta, e somos imediatamente levados ao volteio de outro corpo, já em novo plano e em lugar diferente. São associações de movimento, que tentam encontrar nesses deslocamentos algo que diga também dos mistérios que podem conter os gestos. É uma maneira de estudar atentamente o alongamento, o estiramento, o rodopio, a ginga, o pulo, a cotovelada. E observando esses gestos, cabe elaborar uma cena, que pode dizer respeito tanto à dança quanto ao cinema. É um trabalho que pode combinar improviso e rigor, numa liberdade de ocupação da cena que vem de um cuidadoso processo de composição. Existe, no fundo, toda uma busca pelo nexo dos movimentos dançados, pela variação de planos que podem se combinar sem um eixo de dominância ou de causalidade, mas segundo uma sutil dinâmica de rimas das forças irradiadas.


É nessa costura que Pinta faz ver o quanto articular imagens dançadas é também coreografar uma maneira expressiva de colocar os planos em atravessamento. Se há aquilo que se constitui como um corpo em dança no campo inscrito pelo quadro, podemos passar daí para a dimensão também do que é imagem-corpo em percurso pela tela. A experiência de acompanhar o desfile das séries que convergem e divergem no conjunto do filme inventam uma virtual relação de transformação do próprio corpo do espectador, envolvido no fluxo e nas passagens operadas pelo trabalho de variação. São como que variações em torno de um tema melódico, esse que logo de início o filme anuncia na voz off, uma coreochanchada extemporânea.


Trabalho variativo e derivativo, que incorpora traços de expressões ordinárias e faz o campo da dança contemporânea e da performance ser incrustado por uma expressividade cotidiana do corpo, uma corporeidade e uma estética que vêm também das ruas, das partes muitas vezes não contadas por um escopo mais restrito de possíveis, que pode, em certas ocasiões, prescrever uma boa forma e um belo tom, destinando múltiplas formas expressivas ao lugar das sobras. A coreografia então desembaraça qualquer referência de ordem mais sisuda para abrir-se a todo um mundo de gestos e experiências de corpo de uma vida qualquer. Há um cômico e um riso em Pinta, o que o torna, ao mesmo tempo, estranho, leve e, sobretudo, alegre. Em uma sequência de dança na rua e sob uma chuva que se expõe no próprio caráter cenográfico, os corpos pulam como num carnaval, os movimentos dos braços tornam-se golpes nos rostos, e os que tombaram ao chão se debatem como piabas em rebuliços, imagem que logo se transforma também numa das gags mais emblemáticas do filme.


São esses recursos cômicos e improváveis que também implicam a composição do filme num fazer-se mais enroscado e embolado com o sujo, com o chão, com elementos de grotesco e de absurdo. É aquilo que escapa, que tem pontas soltas, que se expõe na sua impureza. Coreochanchada que se declara nesse estado, para pesquisar também possibilidades de vizinhanças com um fora, já que não parece interessar a postura autocentrada, do diálogo mais limitado com os próprios pares, que iriam compartilhar a compreensão a respeito de tudo o que também está aí, a experimentação performática, a investigação cênica, as expressividades do corpo. 


É que Pinta parece também se empenhar em partir desse lugar para arriscar uma relação com outros lugares e ver o que também pode dizer respeito à dança naquilo que se inventa nas experiências coletivas cotidianas. Em um longo monólogo sobre a acidez da vagina, estamos dentro de um quadro absolutamente rigoroso, dois corpos no primeiro plano, uma ação que se desenrola ao fundo, junto ao mar, um ventilador que se coloca ao lado. O que é enunciado pela atriz já se torna por si só bastante carregado de um humor, mas somado a essa fala, é curioso perceber que, justo na composição tão bem desenhada, podemos encontrar algo mais de um estranhamento, quando a câmera insiste em recortar toda uma visualidade que pulsa também tonalidades desviantes. Pinta vai à procura do enigma desconhecido dos corpos e de como eles se expressam nos seus rituais e cerimônias ordinárias. E faz isso não apenas produzindo sensações desconcertantes, mas principalmente arriscando sair da conversa com os interlocutores habituais, para também apostar em falar com estranhos.




 

REVISTA SOBRECINEMA