VERTICAL

Por Samuel Brasileiro

Uma das definições para estado de exceção encontrada no livro de Giorgio Agamben é “ponto de desequilíbrio entre direito público e fato político”. Vertical é um ensaio audiovisual que surge da vontade de discutir as restrições aos direitos fundamentais que estão ocorrendo no Brasil, a partir do contexto da realidade local da cidade de Fortaleza. Assim, me propus a pensar essa instabilidade em um bairro específico da minha cidade: o Serviluz. Uma das áreas com o litoral mais bonito da capital; é no bairro que está o Farol do Mucuripe, um dos símbolos da bandeira de Fortaleza. Os moradores do Serviluz, porém, viveram um histórico de remoções e continuam a sofrer com o projeto Aldeia da Praia, da Prefeitura Municipal de Fortaleza – construção de uma via paisagística ao longo do litoral do bairro, que irá remover parte das casas que se encontram na orla marítima. Essa imposição da especulação imobiliária se torna uma forma de violência ao negar perceber os vínculos estabelecidos pelas pessoas com o lugar que habitam. Vertical encontra como forma fílmica o diálogo entre voz e imagem. Bruno Spote é um dos integrantes da Associação de Moradores do Titanzinho além de fazer parte do coletivo Servilost e fala a partir das suas experiências de ocupação e vivência no Farol. O filme escuta o que é dito, ao mesmo tempo em que observa as contradições do desequilíbrio entre a esfera política e a social. O estado de exceção silencia essas vozes e a linguagem artística desperta um olhar crítico e sensível sobre problemas enraizados na sociedade. Como diria Rancière, “uma comunidade emancipada é uma comunidade de narradores e tradutores”.

Vertical (2018)

Realização: Samuel Brasileiro

Com: Bruno Spote

 

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