A Hora Azul (2014), de Giovani Barros
Arianas (2014), de Hylnara Anny Vidal

5 fev. 2015

Por Camila Vieira

O FEMININO EM QUESTÃO

Com narrativas ficcionais que se centram em protagonistas mulheres, os curtas A Hora Azul e Arianas partem de pressupostos radicalmente distintos acerca do feminino que encenam. É curioso como ambos são realizados por diretores oriundos de escolas de cinema – o primeiro da UFF, no Rio de Janeiro, e o segundo da Vila das Artes, em Fortaleza – e são bem conscientes do que almejam como filme, mas se ancoram em visões de mundo particulares. Tais pontos de vista em torno da mulher parecem antípodas quando dispostas em uma mesma sessão curatorial – no caso, a Mostra Panorama da 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes.


Se por um lado a dramaturgia de A Hora Azul, de Giovani Barros, adere de imediato a certas referências marcantes – em muitos momentos, parece dialogar com a atmosfera noturna de Millenium Mambo, de Hou Hsiao Hsien, e com o neon oitentista de Anjos da Noite, de Wilson Barros –, existe uma aposta sincera na construção da subjetividade melancólica de Sunny, que subverte/ultrapassa o simples colamento maneirista a um certo modo de produção de imagens do cinema contemporâneo. Sunny é uma dançarina de boate que afirma “inventar boas desculpas para si mesma”, por não se permitir estar totalmente satisfeita com sua condição.


Apesar da sensação de solidão e de não pertencimento ao lugar – explicitada pela metáfora da mariposa logo no início do filme, que também é retomada na narração em off em primeira pessoa –, Sunny gosta de ficar junto com as colegas de trabalho, aceita o nome que inventaram para ela, aprecia as músicas do DJ e diz se divertir com os gringos. Os momentos felizes são efêmeros, mas permanecem nas fotografias que preenchem o espelho do camarim e nos relatos dos encontros casuais com os homens que aparecem na boate.


Ainda que o cansaço domine o corpo de Sunny, há algo de precioso no seu lugar no mundo. Não há espaço para revolta, tampouco para o grito, mas uma abertura para estes breves rompantes de felicidade, para a beleza do efêmero, para os lampejos de uma vida possível na noite. É isso que a leva a vencer o cansaço e a dançar mais uma vez, colada a um corpo masculino, ao som de Eternal Flame, de The Bangles. Uma dança meio sem jeito, um tanto quanto desengonçada, mas que ainda assim é uma questão de pele, de superfícies que se tocam. É pelo contato que os corpos frágeis se amparam, como o belo gesto de repousar no colo de alguém à beira do asfalto.


Já Arianas, de Hylnara Anny Vidal, parte de outro olhar para o feminino, que só parece ser possível por uma oposição radical ao masculino, sempre visto como uma ameaça, um mal do qual é impossível escapar. A forma como se encena tal oposição tem como pressuposto o maniqueísmo: de um lado, os homens maus constantemente assediam as garotas na estrada e são filmados com distanciamento; do outro, as duas mulheres estão entretidas com seus vínculos de intimidade, isolando-se em uma redoma idílica, encenada em primeiro plano.


Talvez o esquematismo seja necessário para expor um certo estado de coisas – a persistência de uma cultura machista, especialmente no interior do Ceará, espaço diegético do filme –, mas não aponta para uma transformação que poderia acontecer, se não na vida ao menos na arte e na relação com o sensível. Apresentar tal estado de coisas de maneira bastante representativa não seria apenas um gesto de reforçar desigualdades visíveis no mundo e de sublinhar a manutenção dos poderes?


A desigualdade paira ali justamente onde é impossível o atravessamento entre os “pólos” que o próprio filme sedimenta e chega ao ápice na sequência da invasão da casa e da agressão aos corpos das mulheres, violadas por corpos masculinos brutalizados. Negar a visibilidade do estupro com um desvio incerto da câmera, que insiste em vagar como cena, é tão agressivo e intolerável quanto o próprio horror da violência ao corpo – pior é o horror que se forja pela associação dos gritos ao relinchar dos porcos. E quando outras imagens sucedem – como resquício de um último sopro – não é mais possível acessá-las por sua pureza idílica, já que o próprio corpo do filme se deixou contaminar pelo intolerável.



 

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