Filme Selvagem (2014), de Pedro Diógenes

27 jul. 2014

Por Érico Araújo Lima

POLÍTICAS SELVAGENS

Uma maneira selvagem de fazer cinema. Que seria um filme selvagem? Não simplesmente selvagem naquilo que diz sobre o mundo, mas também na sua maneira, na ética e na política de entornar o caldo das imagens e borrar a própria forma cinema. Um filme selvagem dentro do próprio cinema. Prática composicional do desarranjo, do embaralhamento. Se dentro das concepções esquadrinhadoras, selvagem seria aquele que não é “civilizado”, talvez seja possível se apropriar do que é atributo desqualificante para remontar aí uma potência. E a tensão passa a se estabelecer justo com uma forma pré-estabelecida de vida, com estruturas de dominância, com a noção mesma de civilidade. Trata-se de fabricar uma insubordinação com qualquer postura definidora das subjetividades. Partir em direção a uma maneira selvagem de fabricar e montar imagens pode ser uma tensão interna com uma língua estruturante e modeladora. Inventar outros cinemas dentro do cinema, aproximar as imagens em outra toada, compor um arranjo delirante, desgovernante, desmantelante. Porque se toda forma de governo está destinada ao fracasso, como sublinha o texto enunciado a partir de Oscar Wilde ao longo deste Filme Selvagem, é no campo mesmo do visível e do audível que se deve evitar qualquer modalidade de governo.


O embate aqui é decisivo: existem imagens do poder, classificadoras de uma sensibilidade, e a elas é preciso fazer frente. Desgoverno de uma estética que des-hierarquiza, dis-junta, des-cria. O filme de Pedro Diógenes talvez seja um manifesto cinematográfico em que a crítica a um mundo de consumo, de espetáculo e de governo se dá como operação de imagens que colocam outras imagens em crise, um movimento de descriação de um regime de visibilidade modelador dos corpos, para formular, nesse gesto de desfazimento, uma feitura desviante.


Existe todo o universo de shopping center e de arranjos capitalistas que surgem na imagem, um mundo onde reinam relações que automatizaram a experiência. Mas o trabalho do cinema é mais do que simplesmente apontar para o desgaste de um apanhado de relações. Para além de uma constatação, é possível atuar num campo de forças sensíveis que intervêm em todo um modo de perceber a experiência do presente. Não se trata aqui de mobilizar um espectador ou de apelar a qualquer perspectiva de uma tomada de consciência, mas de constituir uma experimentação que, no seu desnorteio, pode abrir outras possibilidades de vida. E justo desfazendo uma dimensão de imagens de governo – se pudermos também levar para o campo das visualidades a noção de uma forma-governo –, não se trata também da simples afirmação de outra forma de organização que simplesmente substitua aquilo que é posto em crise. Ao complexificar politicamente os lugares, Filme Selvagem não está no campo das pregações ou da moral. É o filme mesmo que também pesquisa uma libertação. Nem a pura constatação de dados nem o dilema imobilizador no âmbito dos ressentimentos.


Uma canção convoca para libertar, viver, amar. Aqui é Hyldon que é trazido para estabelecer o diálogo com o filme. Em Retrato de uma paisagem, trabalho anterior de Pedro Diógenes, era Belchior quem vinha para a cena sonora, entoando o homem comum e também uma brecha para outras formas de vida. Agora o lugar é na sombra de uma árvore. Tanto em um filme como no outro, era marcante o desejo de intervenção no mundo, de tornar urgente o desconforto com lugares. Se antes um personagem era tomado como intercessor para estabelecer as relações entre filme e cidade, agora a operação se efetua de forma mais intensa na própria mesa de montagem: é esse que passa a ser o lugar da constituição de tensões, desajustes e dissonâncias. “Larga de ser boba e vem comigo. Existe um mundo novo e quero te mostrar”, ouvimos na canção. E o convite que se materializa nas imagens é de um embalo para também acreditar em outros mundos possíveis, não apenas um mundo já projetado e concebido, mas um mundo aberto, indecidível, incerto. Sobretudo um mundo em que a vida possa proliferar.


O cinema passa a ser, então, o campo de experimentação de táticas de resistência. O cinema coloca-se contra o espetáculo. E a operação aqui passa por desnaturalizar o que se apresenta ao olhar, tornando tudo difuso e inapreensível como dado. Imagem sobre imagem, rosto sobre rosto. Tudo borra, tudo passa por uma operação que torna os contornos indiscerníveis e que trabalha as imagens numa perspectiva de mixagem, com efeitos de sobreimpressão e com a criação de vizinhanças entre som e imagem. Efeitos de duplicação do visível e do audível vêm tornar toda a apreensão desse universo fílmico um trabalho para o espectador. É preciso percorrer as veredas que o filme vai torcendo. Uma política da imagem se dá também quando a lógica da clareza e da evidência são desconcertadas, e as relações de dominância e de causalidade entre as imagens se perdem num fio de repetição, vertigem e desprolongamento dos movimentos naturais, para torná-los aberrantes. Se o texto vem com grande força marcando um tom e um discurso ao longo da projeção, a própria investigação quebra esse curso, gera a interrupção, faz a imagem desaparecer e a leitura ser subitamente cortada para abrir a fenda no próprio discurso do filme. Tela vermelha.


É o próprio cinema que se revela, na sua intermitência, na sua impossibilidade. Mas uma impossibilidade que é justo o ponto potente para criar o possível. Impossibilidade porque o campo de possíveis não é dado. Esgotar e descriar o cinema, voltar a um ponto de insignificância, de imagens insignificantes, que não tendo significado, abrem-se tanto mais à sensação. As intervenções videográficas instalam crises selvagens no próprio texto lido. Oscar Wilde precisa vir, mas não deve vir solene, enquadrado num gesto canônico. É preciso que o cinema se instaure como campo de experiência em crise com ele mesmo, selvagem com imagens, textos, formas, paradigmas, referências. Sem fito, sem borda, sem sintonia. Um método selvagem de montar, um método selvagem de pensar. Fabricar no cinema um filme selvagem, fazer disso um ponto de insubordinação a toda forma de governo, a tudo que tenta estabelecer o bom quadro, a boa forma, o bom comportamento e a vida como campo de restrições. Devir-selvagem como uma dimensão política da imagem.






 

REVISTA SOBRECINEMA