MISTÉRIO DOS VESTÍGIOS

17 jun. 2018

Por Camila Vieira

Há uma atmosfera misteriosa que assombra o cinema de Bill Morrison. Ao retrabalhar imagens descartadas e filmes danificados, o diretor norte-americano olha para o passado a partir daquilo que está na iminência de desaparecer. Ele recupera o potencial fantasmagórico e evanescente das imagens. O que interessa são os vestígios, os rastros, o que restou das imagens a ponto de inquietar o olhar do espectador. Ao fazer uso de materiais de arquivo em processo de deterioração, Morrison recupera o valor aurático das imagens, devolvendo a elas sua beleza única a ser cultuada. É também uma forma de contemplação do que permanecia esquecido, soterrado.


No documentário Dawson City: Tempo Congelado (2016), Morrison traz à tona a descoberta inusitada de um acervo de filmes no território de Yukan, no Canadá. Durante a construção de um parque para crianças, escavadores encontraram rolos de películas que estavam encobertos sob a terra. O material consistia em uma coleção rara de 533 filmes realizados na década de 1910 e 1920, que foram descartados no fundo de uma piscina e ficaram perdidos durante 50 anos, até serem descobertos em junho de 1978. A partir do material fílmico recuperado em Dawson City, Morrison assume o desafio de compor duas abordagens em um mesmo documentário: traçar uma conexão histórica dos filmes encontrados com a própria história de Dawson City e resgatar a dimensão poética da deterioração das películas aliada à força cinematográfica das imagens criadas.


Na primeira abordagem, uma linha de acontecimentos históricos é apresentada ao espectador: o desenvolvimento econômico de Dawson City com base na Era do Ouro, quando famílias construíram suas fortunas; a formação de casas de jogos, como cassinos, ringues para lutas de boxes, casas de pôquer; a criação de teatros e cinemas, como o famoso DAAA, que armazenava centenas de filmes. Morrison faz um passeio pela história de personagens e lugares, que aparecem em boa parte das imagens encontradas no acervo.


Em paralelo à narrativa histórica, o diretor chama a atenção para o modo como as películas de nitrato eram facilmente descartáveis, seja por acidentes ou por vontade própria dos distribuidores da época. O material era muito sensível, com componentes químicos inflamáveis – o que provocou incêndios e explosões que mataram centenas de pessoas. Morrison associa o pensamento em torno do descarte e da fragilidade dos filmes a uma reflexão sobre a morte de pessoas do passado e a efemeridade da vida. É um procedimento que também é bastante evidente no primeiro longa-metragem de Morrison: Decasia: the state of decay (2002).

Na segunda abordagem, Morrison enfatiza a atenção para a beleza das imagens encontradas e como a deterioração delas acaba por imprimir diferentes texturas na superfície da película. As rasuras, as bolhas, os riscos fazem desaparecer parte das figuras, compondo formas abstratas que levam o espectador do presente a estabelecer novos olhares para as imagens. Impressiona ver um homem interagir com um vulto branco, provocado pela deterioração de metade da película. É uma obra da passagem do tempo e, ao mesmo tempo, é um mistério que nos escapa.

 

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