Fort Acquario (2016), de Pedro Diógenes

5 fev. 2016

Por Érico Araújo Lima

RACHAR AS IMAGENS, ENGAJAR-SE NAS VIDAS

Fort Acquario, de Pedro Diógenes, é um filme bastante direto e claro no seu gesto. Seria preciso talvez assumir desde já um lugar que se vê completamente atravessado pelas questões impressas nas imagens do filme. Não se trata aqui de simples identificação ou de reconhecimento, mas de um contágio pela força de conflito que o filme estabelece com o mundo. E essa contaminação pelo embate tem a ver com o espaço urbano de Fortaleza, mas também com uma lógica de organização que perpassa tantos outros projetos pelas cidades brasileiras.


Essa escrita do desajuste gera movimento em outros corpos, porque tem justo na simplicidade do gesto a capacidade de mostrar quão ostensiva é a distância entre os discursos das gestões e os modos de habitar trazidos pelas vidas que constituem as práticas desses espaços. O projeto megalomaníaco de construir um Aquário na região da Praia de Iracema em Fortaleza tem uma violência absurda e um deslocamento completo em relação às experiências de toda uma cidade, especialmente dos sujeitos que vivem na região do Poço da Draga, a área mais imediatamente afetada pela obra.


Uma série de mobilizações perpassa a história recente da cidade, para resistir à realização do empreendimento. No cinema mesmo, se pensarmos no gesto crítico ao projeto mais amplo que veste o nome de “revitalização”, seria possível lembrar filmes como Proibido pular, de Lucas Coelho, ou Negócio de Macaco, de Victor Furtado. São dois trabalhos de 2012 que, atravessados pelas forças do presente e pelo desejo de espalhar uma inquietação com o mundo, mostram o quanto as tensões com uma perspectiva de desenvolvimento da cidade vem sendo travada incansavelmente. E o cinema vem aqui fazer parte das redes que criam laço na vida coletiva. Se esses filmes, junto ao mais recente Fort Acquario, não cessam de reverberar uma urgência, é porque as batalhas continuam chegando à porta e convocando as formas expressivas da imagem para uma disseminação em meio às formas de luta vividas no mundo.


É aí que o caráter direto de Fort Acquario encontra tanta potência de reverberação. As fotografias feitas por Victor de Melo são incrustadas pelos modos de viver daqueles que já ocupam e tornam vital aquele espaço. A resposta ao discurso do arquiteto responsável pela obra do Aquário, trazida em off, está nessa maneira mesma de constituir vida em comum, o que já acontece a despeito dos poderes e dos projetos de espetáculo que pretendem reproduzir por aqui as mais recentes novidades tecnológicas. O gesto do filme é simples, porque ele encontra justo naquilo que já está em fluxo no mundo a matéria para operar uma tensão fundamental, para evidenciar um descompasso.


Da mesma forma, os materiais que revelam o lado do poder, se pudermos dizer assim, já estavam disponíveis, divulgados publicamente para espalhar a lógica do projeto. Fort Acquario vem, então, contrariar a operação mesma dessa disseminação espetacular, com um trabalho de montagem que não é simplesmente dialético, mas tem muito mais a ver com o contrabando e com o desvio. É como se fosse preciso introduzir um princípio de hackeamento nas imagens do poder, torná-las inoperosas nas suas finalidades primeiras e coabitá-las pelas vidas que elas negam. Devolvidas ao mundo em outras escalas e em descontinuidade com seus projetos, as visualidades institucionais perdem o lastro com seus cálculos.


Se em Filme Selvagem, curta anterior de Pedro, havia alguns procedimentos formais parecidos, especialmente quando se tratava de colocar em fricção certos projetos de mundo, aqui parece que essa pesquisa ganha uma força mais atada à vida de todos os dias, numa contaminação muito intensa com o lugar de onde se parte e no qual se pretende intervir. Filme Selvagem lidava com a tensão pelas sensações videográficas, não sem algum risco de se colocar um pouco distanciado do universo que era posto em crise. Fort Acquario não pode se permitir essa posição de recuo, e as fotografias utilizadas são emblemáticas de uma intimidade com esse espaço e de uma implicação completa naquilo que está em jogo aí.


Ao mesmo tempo, parece que estamos aqui diante de uma reflexividade maior quanto aos limites do próprio cinema: não se trata de despertar consciências ou de mudar o mundo com a imagem, mas de engajar-se junto a uma série de lutas em curso, tornando o filme mais um corpo em processo de disseminação e de contágio com as vidas que resistem. Fort Acquario é gesto que se empenha, de um lado, no embate para pôr em defasagem os discursos do poder, e de outro, no desafio de se fazer em regime de contiguidade com as existências que já ocupam a praia durante todos aqueles domingos de sol em Fortaleza.

 

REVISTA SOBRECINEMA