A CIDADE E AS GENTES

Escafandro (2017), de Carolena Morais
Enquanto as redes resistem (2017), de João Moura
Fô​lego (2017), de Kamille Costa
Teto (2017), de ​​Darwin Marinho

4 dez. 2017

Por Wallace Andrioli

Há exemplos bastante potentes no cinema brasileiro recente que discutem as relações das gentes com as grandes cidades que habitam. O Som ao Redor e Aquarius, ambos de Kleber Mendonça Filho, para o caso de Recife, Regeneração, de Humberto Carrão, para o Rio de Janeiro (referenciando, por sua vez, o clássico Rio 40 Graus, também dedicado a analisar criticamente a geografia social da antiga capital federal), A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha, para Belo Horizonte, A Cidade é uma Só? e Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, para Brasília. Tendo Fortaleza na mira, Enquanto as Redes Resistem, de João Moura, Escafandro, de Carol Moraes, Fôlego, de Kamille Costa, e Teto, de Darwin Marinho, seguem esse caminho.


O primeiro deles é o que dialoga de maneira mais direta com a criticidade de Kleber Mendonça e Carrão. Documental, Enquanto as Redes Resistem olha para velhos pescadores que são engolidos por um processo de modernização da Avenida Beira-Mar, tratados como seres descartáveis diante do novo que chega. Especulação imobiliária e “embelezamento” do espaço urbano, com o turismo como alvo importante, são elementos centrais no processo apresentado por Moura, que o aproxima das discussões propostas em Aquarius e, sobretudo, em Regeneração – vale citar também O Prefeito, de Bruno Safadi, fruto direto, como o filme de Carrão, das obras de revitalização da zona portuária carioca. A barbárie existente por trás da construção do “civilizado”, do “moderno”, o apagamento dos indesejáveis de paisagens em transformação.


É interessante como o diretor constrói a narrativa de Enquanto as Redes Resistem: num primeiro momento se dedicando exclusivamente a acompanhar o cotidiano de trabalho dos pescadores, Moura só introduz o tema que os aflige (a determinação da prefeitura de retirar seus barcos da praia) após o tempo necessário para estabelecê-los como portadores de um meio de vida a ser preservado. O filme marca, então, de maneira clara, sua posição política nessa questão.


Escafandro se filia a outro tipo de registro. Ainda que Moraes insira algumas imagens
de enchentes em Fortaleza, que poderiam levar à leitura do escafandro utilizado pelo
protagonista como um instrumento justo de prevenção diante dos problemas estruturais
da cidade, o caminho interpretativo aqui é mais aberto. Talvez o personagem que caminha a esmo vestindo uma armadura de mergulho, enquanto uma tempestade se
anuncia, represente o homem fraturado após o fim de um relacionamento, na defensiva
em relação a possíveis novas histórias de amor. A cidade como espaço de construção,
destruição e rememoração de afetos, nesse sentido, tangenciando os temas de A Cidade Onde Envelheço.

No entanto, a estranheza criada pelo visual de Escafandro, com a combinação entre a vestimenta do protagonista e os frames que prenunciam a tempestade devastadora,
evoca uma atmosfera apocalíptica que tanto remete à situação de desilusão amorosa, quanto a um cenário urbano distópico, excludente, opressivo. A construção dessa
estranheza com recursos mínimos pode criar uma sensação de sci-fi mambembe que faz lembrar o cinema de Adirley Queirós, sobretudo Branco Sai, Preto Fica e o
recentíssimo Era Uma Vez Brasília.


Já Fôlego tem uma dramaturgia mais explícita, alicerçada numa progressão narrativa clara. Seu grande mérito está em conseguir, no pouco tempo que dura, estabelecer uma

trinca de personagens marginais que, vistos individualmente num primeiro momento, aparentemente não possuindo nenhuma relação entre si, vão aos poucos se revelando próximos um do outro, partes de um mesmo microuniverso. O tema aqui é o da perspectiva de vida, justamente onde ela parece faltar. Os dois rapazes que se engajam no mundo do crime, sendo um deles mais propriamente dedicado a esse ofício, e a jovem cantora que sonha com o sucesso no Rio de Janeiro. A diretora demonstra carinho por essas figuras, lamentando a dureza do destino que lhes espera: a prisão, a violência policial, a provável desilusão com a carreira artística. A cidade como espaço de sonho e frustração, propulsora da migração para congêneres dotadas dos mesmos problemas.


Teto, por fim, é o mais difícil desse conjunto de filmes, corpo estranho cuja captura
exige um pouco mais do espectador. Marinho como que constrói um contraponto inicial entre a precariedade das moradias de rua e o aconchego do novo lar da protagonista Jéssica, que se estabelece, convida uma amiga para conhecer o espaço, toma banho,
fuma um baseado enquanto dança ao som de Madonna e vai dormir. Até que,
repentinamente, ela interrompe o sono para tomar uma atitude a princípio inexplicável. Mulher, negra e transexual, Jéssica encarna uma marginalidade incontornável, mesmo
vivendo situação de certo conforto. Nesse sentido, seu ato final soa como um gesto
libertador, de abertura de sua casa para a vida que pulsa nas ruas, com todas as
contradições que as ruas carregam. Trata-se, portanto, do filme mais livre dos quatro,
inclusive por apontar para essa liberdade como necessária ruptura com as opressões cotidianas da urbe, materializadas nos muitos muros, grades e portas que a constituem.

Quinta maior cidade do Brasil, Fortaleza é atravessada por contradições e tensões, brutalidade e diversidade. Os múltiplos afetos que se desenrolam em suas ruas, as diferentes formas de relação com seus espaços estão, em boa medida, contemplados
nesse quarteto de filmes, também caracterizado pela pluralidade estética e narrativa.

 

REVISTA SOBRECINEMA