A PARTILHA DO ÍNTIMO

Chamas de cabrito (2015), de Lohayne Lima
Como o vento (2014), de Fernanda Brasileiro
Arianas (2014), de Hylnara Anny Vidal 
Fortaleza, 30 de maio de 2014 (2014), de Grenda Lisley

7 set. 2015

Por Camila Vieira

Como compartilhar uma imagem que traz as marcas da intimidade em sua própria
feitura? Como fazer de um sentimento particular uma ponte com o outro? De que modo
o sensível pode não ser apenas a garantia do solipsismo, mas um gesto de
atravessamento – de desestabilização de lugares (seja de quem produz a imagem, seja de
quem a vê)? Penso que os quatro filmes desta sessão do Cine Caolho inventam imagens
com uma vontade de propor desvios para o íntimo, de fissurá-lo, de instaurar rachaduras
em seu horizonte unívoco e seguro.


Uma cena doméstica abre Chamas de Cabrito, de Lohayne Lima. Mas nem tudo na cena
fica totalmente exposto. O que a jovem (a própria realizadora) está lendo? Ela está de
costas para nós espectadores. Não sabemos o conteúdo escrito naquelas páginas que ela
amassa e se desfaz. Há um jogo com o fora de campo: não vemos aquelas páginas
destruídas, mas há uma caixa de fósforos e uma garrafa de cachaça sobre a mesa. O
relato em primeira pessoa é destinado a alguém. Seria a lembrança de um acidente ou a
recordação de um sonho? A voz do relato de um possível trauma – a perda/ausência
deste alguém – é justaposta às imagens de uma viagem a Quixadá. A saudade se
transfigura em um rastro de dança. A potencialidade de Chamas de Cabrito nos coloca
em dúvida sobre a experiência íntima da jovem. Mas, ao mesmo tempo, somos tocados
por tal experiência. Estamos ali juntos com a realizadora-atriz- personagem, com este
alguém a quem ela se reporta (e que bela imagem é ele saber onde ela está e não a vai
procurar!) e com o filme e seus enigmas.


Como o Vento, de Fernanda Brasileiro, também é um filme assombrado pelos enigmas
da intimidade. O curta começa e termina com o encontro de uma jovem com um rapaz:
de início, como figura fantasmagórica de um sonho; no fim, como cena não menos
espectral em uma rodoviária. No meio das duas sequências que se conectam, a narrativa
é centrada na jovem, que procura conciliar a rotina de mãe e dona de casa, que cuida de
um bebê e vive com outro companheiro, e a vida como artista, que ensaia o canto ao
lado do rapaz que ela gosta. Após a jovem se olhar no espelho, há uma bela pausa, antes
de qualquer decisão: ela embala o bebê ao som de uma música que faz seu corpo se
movimentar junto com a câmera, enquanto acompanhamos a espera do rapaz de malas
prontas na rodoviária. A janela está aberta. Os carros atravessam a rua entre os dois
jovens. Há uma incerteza sobre o futuro: o encontro acontece à distância.


Já Arianas, de Hylnara Anny Vidal, pensa a intimidade a partir da oposição radical entre
feminino e masculino, visto como ameaça. A oposição elabora um maniqueísmo: de um
lado, os homens maus constantemente assediam as garotas na estrada e são filmados
com distanciamento; do outro, as duas mulheres estão entretidas em cenas íntimas,
encenadas em primeiro plano. A desigualdade permanece justamente onde é impossível
o diálogo entre os “pólos” que o próprio filme sedimenta e chega ao ápice na sequência
da invasão da casa e da agressão aos corpos das mulheres, violadas por corpos
masculinos brutalizados. Talvez o esquematismo seja necessário para expor um estado
de coisas – a persistência do machismo, que violenta as mulheres –, porém não abre
caminho para uma transformação, mesmo com a tentativa de aplacar a dor a partir do
tom poético das últimas imagens.


Mas ainda é possível ver beleza nas relações particulares que criamos com o mundo.
Fortaleza, 30 de maio de 2014, de Grenda Lisley, é este pequeno gesto: um vídeo-carta

com pôr do sol, registrado com uma câmera de celular durante uma viagem. Intercalada
por cartelas com frases telegráficas, a imagem guarda rastros visuais e sonoros: árvores
em contraluz rasgando o azul escuro do céu, com o som ambiente do barulho do motor
do carro e do vento. A precariedade compõe clima com uma música de Legião Urbana.
Uma cartela anuncia um pedido: “Leva este céu de lembrança”. Da construção íntima
desta missiva audiovisual, há uma oferta de delicadeza, destinada também ao
espectador.

 

REVISTA SOBRECINEMA