DIVERGIR NO GRITO

17 set. 2018

Sempre Verei Cores no Seu Cinza (2018), de Anabela Roque

New Life S.A. (2018), de André Carvalheira

Por Camila Vieira

Se é possível aproximar Liberdade de Los Silencios, o curta-metragem Sempre Verei Cores no Seu Cinza (2018), de Anabela Roque, guarda algumas semelhanças com Kairo, também já exibido na competitiva do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Enquanto o curta ficcional de Fabio Rodrigo homenageia Marielle Franco, o documentário de Anabela é marcado pela memória de Matheusa Passareli, ativista LGBTQ que também foi assassinada no Rio de Janeiro, um mês depois de Marielle. Matheusa é uma das personagens que participam das manifestações organizadas por estudantes professores e funcionários da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e que foram registradas no curta.

Sempre Verei Cores no Seu Cinza é um filme realizado com a urgência dos atos em defesa da UERJ e contra seu sucateamento que vem sendo sistemático desde 2015. As imagens das performances de docentes e discentes alcançam a instabilidade dos registros momentâneos ao ar livre. É também um documentário que se apresenta em um contexto de debates sobre o futuro da universidade pública no Brasil, com os agravamentos da escassez de recursos e as ameaças do fim do ensino superior gratuito.

O grito de estudantes e professores em frente à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) ao final do curta é uma reivindicação de quem luta e não se conforma com o poder das instituições. O longa-metragem New Life S.A. (2018), de André Carvalheira, também encerra com grito, mas desta vez de um grupo de empresários que desejam manter o status quo. No curta, o grito é de insurgência. No longa, o grito é de preservação violenta dos poderes.

Ao conduzir a narrativa a partir de uma encenação que se serve da paródia e da farsa, New Life S.A. busca lançar um olhar crítico para personagens de um modelo de vida neoliberalista. A intenção é sublinhar o quanto é ridículo a defesa de um ideal de progresso, de desenvolvimento, de concentração da renda na mão de poucos e da relação perniciosa com políticos corruptos. Ao propor uma explicitação dos estereótipos de uma classe média alta, o paródico corre o risco de apenas confirmar o já conhecido. No fundo, há pouca provocação em New Life S.A. – algo que me faz remeter a uma certa domesticação do incômodo já repisada por alguns filmes de Sergio Bianchi, em especial Cronicamente Inviável.  


Se todo o jogo cênico de New Life S.A. se ancora na imagem publicitária e na noção de representação, a teatralização do ridículo que o filme tenta combater parece se solidificar com o acúmulo das sequências. A postura do político que ensaia discursos falsos para a câmera é retomada algumas vezes. A interação da família burguesa é forjada como uma vitrine viva. Os empresários falam de “empowerment”, “satisfação”, “conforto” para convencer seus clientes. O arquiteto é manipulado pelo dono do empreendimento e mantém uma vida tediosa em casa. As ações convergem para um amontoado de esquetes irônicas, que apenas acomodam ou apaziguam o já visto.

 

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