NARRAR A TRAGÉDIA FAMILIAR

Elegia de um Crime (2018), de Cristiano Burlan

16 set. 2018

Por Camila Vieira

O começo de Elegia de um Crime (2018) guarda ressonâncias com Mataram Meu Irmão (2013): há um percurso em uma estrada (desta vez, em uma manhã, diferente do ambiente noturno e desfocado do filme anterior) e um telefonema. O diretor Cristiano Burlan faz uma ligação para a polícia de Uberlândia com a denúncia de que o assassino de sua mãe estaria escondido em um assentamento em outro município de Minas Gerais. Burlan aparece em cena durante a conversa. No filme anterior, o diálogo por telefone com a funcionária do cemitério é apresentado em voz off com uma cartela preta. O assunto paira sobre os motivos que levaram o cemitério a exumar os restos mortais do irmão do diretor em um jazigo coletivo. Nos dois filmes, Burlan se depara com o modus operandi das instituições diante dos casos trágicos de seus familiares.


A trilogia do luto de Cristiano Burlan começa com o curta Construção (2006) – em torno da morte do pai –, desenvolve com Mataram Meu Irmão (2013) e finaliza com Elegia de um Crime (2018). É nítido como o diretor encerra sua narrativa da tragédia familiar com um grau maior de exposição, de implicação subjetiva, de enfrentamento. Se sua história já não é agradável, nem suave, tampouco inventada (como o próprio realizador explica em Mataram Meu Irmão), a investigação que se sucede no último filme vem com a lucidez de que filmar pode ser muito violento. Já não é tanto o olhar de perplexidade para a tragédia, mas a constatação de que o gesto de filmar pode ser cruel (um programa sensacionalista de televisão chegou a expor a imagem do corpo da mãe no local do crime), mas também servir como contra-poder (buscar uma outra imagem da mãe e, em paralelo, tentar capturar o criminoso foragido).


A mãe de Burlan, Isabel, foi assassinada por um homem violento, ciumento, que já tinha a agredido em outros momentos. Se Mataram Meu Irmão acena para uma reflexão sobre a realidade social na periferia de São Paulo, Elegia de um Crime aponta questões em torno do feminicídio, da violência doméstica e da condição da mulher diante de relacionamentos abusivos. As tias conversam com Burlan sobre as diferenças geracionais entre as mulheres da família e a relação com o universo masculino. Familiares e amigos recordam que Isabel era uma mulher muito bonita e a beleza tornou-se um fardo para ela, que já tinha passado por um casamento abusivo.

A repórter do programa sensacionalista pouco se recorda da mãe de Burlan, em meio a tantas outras vítimas de crime que abordou em suas notícias a serviço do choque e da comoção. Mas é justamente ela quem se mobiliza a auxiliar o diretor na captura do assassino foragido, já que tem contato mais próximo com a polícia. No entanto, a busca acaba sendo em vão, sobretudo pela inoperância dos agentes policiais mediante o caso. O criminoso Jurandir permanece livre e há relatos de que ele assassinou outras duas mulheres.

Se o ato de filmar reivindica a procura por justiça (e a exposição da foto de Jurandir ao final seria seu gesto definitivo), há também o desejo de compor outras lembranças da mãe a partir dos relatos de familiares e amigos. A irmã Kelly fala do sonho premonitório que teve dias antes de encontrar a mãe morta. Um dos irmãos que passou boa parte da vida preso diz se arrepender de ter se distanciado da mãe. O longo abraço de Burlan no irmão parece ser ainda mais doloroso quando o espectador é informado por uma cartela que ele voltou à prisão. Novas histórias são desveladas, como a adoção do realizador. Narrar a tragédia familiar também é uma forma do próprio diretor se encontrar.

Elegia de um Crime filia-se a uma tradição de documentários feitos por realizadores a partir de memórias familiares como 33, de Kiko Goiffman, e Diário de Uma Busca, de Flávia Castro. São dramaturgias intransferíveis, pois cada realizador está imerso na própria experiência que opta narrar. O caráter autobiográfico de filmes com tal perfil não se confunde com mera postura individualista, na medida em que acabam por configurar comentários em torno de determinado contexto histórico ou social. O olhar de Elegia de um Crime não é apenas para a mãe de Burlan, mas para o modo como se perpetua a violência de gênero no Brasil.

 

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