Vailamideus (2014), de Ticiana Augusto Lima

31 jan. 2014

Por Érico Araújo Lima

TELA EM FAMÍLIA

Há sempre algo que o cinema pode problematizar com gestos muito simples. Vailamedeus, de Ticiana Augusto Lima, faz toda uma investigação de um ritual familiar em apenas duas construções de quadro. Um é mais aberto e recorta a avó da realizadora e os familiares que se juntam para fazer um retrato. O outro é mais próximo, fechado no rosto, e observa a expressão de um olhar, os movimentos de mãos. Existe a festa, a homenagem àquela em torno da qual todos se reúnem, mas há sempre mais, e tudo vai se construindo diante da câmera e atrás dela. É que além daqueles que ocupam o quadro, existe também todo um movimento no fora-de-campo, que é remetido, sobretudo, pela fala de uma locutora entusiasmada que tenta organizar o ritual.


É ela quase uma mediadora da festa, a que chama cada membro da família, a que convoca cada círculo que vai se formar em torno da avó. Por meio dessa voz, podemos ver toda uma movimentação que não está ainda no campo do quadro, mas que é fundamental na constituição da cena que se elabora ali. Alguém precisa parar de comer, outro precisa se apressar: é toda uma economia que a locutora promove, toda uma forma de dispor os corpos, uma maneira de distribuir e dizer os momentos específicos para aparecer e se fazer presente. E todos querem estar ali, guardar o instante, repetir o gesto que provavelmente é feito há anos. Todos querem participar, mas diante do espectador surgem sempre dúvidas justo quanto à modalidade de estar da própria homenageada e quanto às relações que podem ser estabelecidas nesse gesto que se repete.


E é aqui que parecem estar o desafio e a complexidade do movimento fílmico de Vailamideus. Não há posição fácil diante do visto e do experimentado, tanto da parte da realizadora quanto da parte do espectador. Estamos um pouco como que diante de um indecidível desconforto, um forte incômodo que talvez não saibamos como resolver. Porque é uma experiência inquietante e que pode, virtualmente, se conectar com toda uma comunidade de quem acompanha os acontecimentos na tela. É como se ver o rosto da avó e as ações dos que estão em volta dela nos dissesse respeito de forma bastante intensa. Essa camada logo evidente do filme é o que nos leva de imediato a fazer associações com nosso próprio campo de experiência, com nossas próprias festas, famílias, avós. Mas o filme é sempre mais do que identificação ou reconhecimento. Certamente, ele não acrescentaria muito se permanecesse nessa região que é a de fazer da tela o lugar da semelhança, o ponto em que se encontra o mesmo, o já visto e o já experimentado no mundo pelo espectador. Na simplicidade de composição que se elabora aí, existe também a complexidade de um problema tanto cinematográfico quanto de vida.


É que, se é observada toda uma maneira de a família relacionar-se e de todos os parentes colocarem-se com a avó, há sempre uma questão que não cessa de ser colocada a partir do próprio movimento de tornar imagem esse universo. O que fazer diante do que se vê em casa e do que se torna filme na tela? E talvez mais inquietante seja para Ticiana o desafio de constituir no filme um espaço de pensamento, mais do que um lugar do julgamento. O desafio é se instalar em cada instante, em cada um dos planos dessa obra, sem apontar para qualquer instância de juízo que venha de uma postura externa e distanciada, de um olhar que poderia pressupor outra maneira de organizar aquela maneira de estar junto que é percebida ali. Festa em família.


Quando a própria realizadora entra em quadro, com o círculo de que também faz parte, parece que a implicação vira a marca dessa incontornável contaminação pelo que se filma. Estar ali e incluir esse momento na montagem parecem gestos emblemáticos de uma obra consciente de todo o desafio que enfrenta. Trata-se de uma escolha que, além de fílmica, é mesmo familiar, de certa maneira. Uma opção que parte de uma ética no fazer cinema e no constituir o espaço com aqueles que integram uma vida em comum. O “vem, Tici” que podemos ouvir é movimento tanto da obra quanto dos corpos com quem se vive. É uma chamada tanto dos parentes quanto do próprio processo de realização. É uma convocação urgente pela qual se passa quando se enfrenta o desafio de tornar compartilhável em matéria fílmica as materialidades de relações em família.


 

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