Baronesa (2017), de Juliana Antunes

24 jan. 2017

Por Camila Vieira

É SUFICIENTE DAR A VER?

Dentro do cinema brasileiro, é raro encontrar filmes com personagens de periferia em que a mulher tenha voz. A figura feminina geralmente fica restrita ao espaço da cozinha, do cuidado dos filhos, dos afazeres domésticos, representada como alguém a serviço do homem, como coadjuvante a quem não é dada a possibilidade de falar. Baronesa, de Juliana Antunes, procura corrigir essa distorção ao colocar no centro de sua narrativa mulheres de periferia que conversam entre si, que expõem inquietações, que questionam seus companheiros.


Por outro lado, não é suficiente apenas dar a ver. É necessário compromisso com as imagens do outro. É preciso responsabilidade com aquele que é diferente de quem realiza. A pergunta pelo modo como as imagens são construídas implica considerar distâncias e aproximações, que muitas vezes são ignoradas diante da urgência da realização. Baronesa é um filme urgente, talvez urgente até demais, na medida em que é tomado pelo procedimento expositivo de feitura das imagens.


O encadeamento narrativo acumula blocos de cenas em que algo sempre aparece como da ordem da pertinência temática: a dificuldade de juntar dinheiro, o receio de “sofrer na vida” com o casamento, a partilha da droga, o estupro na infância, a confissão de que “bloqueou o coração de amor”, a conversa com o companheiro, que carrega com uma tornozeleira eletrônica.


Há um medo constante da violência do bairro. Andreia quer se mudar para Baronesa, pensando em construir uma vida melhor, longe da guerra de facções do tráfico. Se a princípio, o filme deixa a violência fora de campo e mantém presente nos discursos das personagens, ela se torna explícita na sequência do tiroteio repentino, que provoca o desequilíbrio da câmera a ponto dela cair. É uma cena de provocação de choque, que nada se distancia dos procedimentos midiáticos de lidar com o real. O tiroteio acontece no momento em que as personagens cantam. Dar a ver esta cena funciona como aviso ao espectador: jamais tente escapar do real. 


Baronesa esfrega o real diante do nosso olhar, para que não possamos esquecê-lo. E não há como esquecer o impacto da discussão entre Andreia e o filho pequeno, em uma sequência montada com voz off, em que ouvimos os gritos da mãe e o choro copioso da criança, enquanto observamos um menino assustado na porta da casa, com latas vazias de cerveja no canto. Só esta cena já indica que houve menos cumplicidade entre quem filma e quem é filmado, a favor de uma exposição voyeurística do real.


 

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