Em trânsito (2013), de Marcelo Pedroso

28 jan. 2014

Por Érico Araújo Lima

MANIFESTAR CRISE

O gesto fílmico de Marcelo Pedroso parece bastante arriscado neste Em trânsito. Não se trata, necessariamente, do risco no contato com o mundo, no procedimento do cinema documentário em filmar o real, mas de outra região arriscada, a zona bastante complexa que é a de fazer das imagens a expressão de um conjunto de inquietações com uma situação social e econômica. É uma experiência arriscada que se efetiva no próprio filme, nas escolhas mesmas de operar um protesto bastante marcado em relação à determinada configuração que se institui. É um filme que tem certa violência na maneira de se jogar no mundo, uma violência arranjada, sobretudo, com ironia, em recursos que são constituintes de uma forma-intervenção.


As posições tomadas nesse gesto são bastante claras e definidas. O filme vai ser ativador de uma poética de imagens que têm alvos. Um deles, de forma bastante explícita, é o governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Já no início, ouvimos uma dessas gravações que o político faz para pedir votos para seu candidato a prefeito em Recife. Estamos nessa cena com Elias, o personagem que o filme acompanha pela cidade. É ele quem recebe a ligação do governador. É ele também que depois tem a casa destruída por um trator. O gesto de Pedroso parece surgir aqui com veemência, sem concessões, forte movimento que tenta contrariar uma maneira de esquadrinhar o espaço. A montagem é, nesse percurso, bastante incisiva. Em trânsito põe uma série de elementos em relação. Há toda uma complexidade de problemáticas envolvidas que se interpenetram e que parecem necessitar de um grito. No decurso das imagens, parece que se constitui uma montagem-manifestação.


Vemos os carros em série num grande estacionamento. E são eles que ocupam as ruas, é em meio a eles que Elias perambula em alguns momentos. O que há como paisagem é principalmente a edificação de muitas vias para que possam circular os automóveis. São construídos viadutos, e a voz off de Dilma Rousseff entoa o elogio ao consumo e ao fortalecimento da indústria automobilística. Pedroso chega a colocar o personagem em uma concessionária, dentro de um carro, como que experimentando essa possibilidade de uso. Mas talvez o momento de maior confronto venha quando Elias toma um desses bonecos de papel de Eduardo Campos, exposto na rua durante a campanha eleitoral, e corta o pescoço dele. A cabeça é desmembrada do corpo, e o rosto do governador pode ser transformado em uma máscara que vai ser usada pelo próprio Elias em outro instante, quando rege uma espécie de sinfonia, executada por uma orquestra de máquinas.


É Elias agora quem está, de alguma forma, orientando movimentos do trator que antes tinha destruído a casa dele. É também ele quem está com uma máscara que remete a um dos responsáveis por esses processos de sufocamento de possíveis na cidade. Há muita ironia nas operações escolhidas aqui. E é bastante curioso como nesse filme de Pedroso, é bem marcado o rosto dos poderes. Aqui existe uma concretude muito forte quanto à materialidade de uma estrutura que faz mover uma série de formalizações do espaço. Não se trata de qualquer metáfora ou regime de sentido do campo do simbólico. Não seria reação a uma máquina abstrata, distante, ou a um poder transcendente, porque efetivamente a matéria fílmica é toda trabalhada sem receio de dar nomes e de dar corpo. A imagem vem mesmo como gesto arriscado entre afirmar-se como filme e sair mesmo da condição de filme. É um movimento de completa entrega a um desejo de fazer perturbações no sensível. E talvez justo na condição paradoxal do cinema que é cinema e que também sai do cinema para um fora, esteja um liame que possibilita rotura nas ordenações da cidade.


Em trânsito é um filme que se lança de forma bastante marcada no gesto de crítica, uma obra que talvez pesquise uma montagem e uma imagem críticas. E seria preciso entender aqui a crítica em sentido mais amplo, não apenas como uma crítica a, mas como uma crítica em, gesto em movimento, em atravessamento, inserção no mundo para embaralhar as coordenadas, inclusive as próprias. Montagem que vem para desmontar e retirar os corpos do encadeamento dos poderes, imagem que surge para fazer mesmo um manifesto. Quase uma obra performática, que existe enquanto crise com o mundo e com ela mesma.


 

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