EM DESACORDO COM UM MUNDO

Branco sai preto fica (2014), de Adirley Queirós

9 fev. 2014

Por Érico Araújo Lima

Branco sai preto fica é um filme de enfrentamento. Ele ativa toda uma luta subterrânea, vai filmar ali onde alguém resiste. Preparar a insurgência. Adirley Queirós fabrica condições para que o centro entre em fissão, para que as bordas pressionem, venham tomar parte e inaugurar uma cena de conflito com o instituído. Existem seres que traçam figuras singulares de luta. Acompanhamos as vidas de personagens mutilados pelos poderes, vemos a fabricação de outros mundos na tensão com as lógicas do controle. É o desejo dessas singularidades que vem insistir na perturbação de qualquer ordem dada. É a voz de Marquinho, o DJ que conta a própria história na rádio ou que decide colocar as músicas que quer durante a madrugada. É a trajetória de Sartana, para quem é fundamental ter autonomia em relação à própria perna mecânica: vontade de se mover com liberdade.


Resistir como uma questão vital. Os povos são constantemente ameaçados de destruição, ignorados nos processos de construção da cidade, revogados como partes falantes e moventes. Branco sai preto fica: a frase é lembrada no retorno à história que marcou as vidas, uma invasão da polícia durante o baile Quarentão, na Ceilândia. Branco sai preto fica: ordenação dos lugares, estabelecimento das fronteiras, das hierarquias na ocupação do espaço. A repressão sempre tem um perfil estabelecido, a ela interessa demarcar, isolar, e então mutilar as diferenças. A cavalaria quer atropelar, quer sufocar. A luta é entre a vida e as forças que investem no desaparecimento. E assimBranco sai preto fica – o filme, já não mais a frase policial – vai operar um contramovimento: constituir uma luz que elabore outras visibilidades dos homens na cena, inventar um ritmo que perceba as variações dos corpos populares, forjar o clima da ficção científica que é percurso e travessia de tempos e espaços.


São as maneiras de aparição de uma comunidade que interessam aqui. E para que ela instaure uma pregnância na imagem, existe todo um caminho tortuoso a ser navegado, tanto com desvios quanto com decisões mais marcadas. Um terceiro personagem, que desenvolve um trajeto quase paralelo, mergulha de modo mais definitivo na fabulação, ao mesmo tempo em que se torna quase um recurso explicativo para algumas questões que eram apenas evocadas. É apenas nesse arco da estrutura que surgem mesmo momentos de entrevista com os outros dois que passaram pela experiência de repressão nos anos 1980. Estamos tanto na entrega à criação de outro mundo quanto no esforço em explicitar as conexões com o passado, em tornar mais evidente o processo de memória posto em jogo.


Nesse cruzamento de tempos, o cinema também será o potencializador da reunião de forças. A dispersão passa a se orientar no sentido de tomar focos em comum. Pouco a pouco é possível desenvolver a estratégia de perfuração, organizar uma linha de frente, desenhar aquilo que se projeta. Da mesma forma que Brasília é a cidade planejada, existe também a gestação de um ataque. É efetivamente disso que se trata aqui, maquinar uma batalha. Talvez estejamos num dos gestos mais radicais – e também mais complexos e arriscados em suas implicações – do cinema brasileiro recente. Nos traços do desenho, entra em cena uma implosão do centro, um abalo de estruturas, uma operação que parte para o confronto direto. A insurgência preparada materializou-se em linhas e em papel. O filme enche-se de toda uma energia incendiária. O que parece fundamental aqui é mesmo um gesto que pode apontar para um novo fôlego na insistência em viver. Mais do que qualquer atitude niilista ou de catástrofe, parece se tratar mesmo de incendiar novos flancos sensíveis. Talvez estejamos diante de uma aposta radical naquilo que o filme pode produzir, não como mobilização para uma continuidade com o mundo, mas para entrada mesmo no desacordo com ele.


Em um universo onde são necessários passaportes para cruzar os limites impostos, desfazer o centro pode ser o ato extremo de imagens que resistem ao estabelecimento de regras. São visualidades que irrompem como recusa a um mundo anterior, a uma lógica que seja irradiada de um ponto único, a um paradigma que esquadrinha o dentro e o fora, quem sai e quem fica. Não se trata aqui de respostas a uma situação social. Uma prática de injustiça é posta em tensão com figuras inventadas na ficção cinematográfica. Mas é sempre de forma bastante complexa que isso se dá, porque colocar-se na dicotomia seria justo mera afirmação dos lugares a todo instante já organizados pelo campo do instituído. O enfrentamento do filme se dá não como simples polarização com o que estaria antes, mas como geração de novas camadas ao mundo, uma maneira de torcer um mapa restrito de possíveis e apontar para a produção de outros lugares a partir das fabulações dos povos.


 

REVISTA SOBRECINEMA