Medo do Escuro (2014), de Ivo Lopes Araújo

9 fev. 2015

Por Camila Vieira

ALEGORIA, RUÍNA E SONHO

Ivo,


Já faz algum tempo que Medo do Escuro reverbera em mim, desde aquela exibição surpresa em Fortaleza. Saí da sessão me perguntando o que tinha acabado de ver. Ou melhor, o que tinha acabado de sentir... Acho que teu filme abarca essa capacidade: de nos arrancar das comodidades do entendimento, de alterar nossas percepções, de nos deixar assustados, tal como aquela GAROTA que subitamente vira o rosto para nós com seus grandes olhos cheios de espanto. Por isso, decidi escrever esse texto em primeira pessoa, como um gesto de compartilhar contigo meu próprio assombro.


De imediato, teu filme me fascinou pela aposta no artifício, como estratégia de invenção de mundos possíveis no cinema. Percebo que é uma vontade presente em alguns filmes brasileiros contemporâneos – talvez poucos, como Batguano, Doce Amianto, A Misteriosa Morte de Pérola – que tanto admiro por não se contentarem com relações contíguas com um real previamente conhecido e mapeado, mas por serem operadores de experimentações estéticas muito singulares, que instauram outro real ainda sem nome e não temem o risco do desconhecido ou de exceder a cena.


Inventar outras articulações no cinema é também criar múltiplos sentidos provisórios. Sinto que Medo do Escuro assume a beleza do alegórico como contraponto ao simbólico. Enquanto as metáforas e os símbolos apontam para unívocas interpretações de mundo, a alegoria possibilita uma proliferação de sentidos, que sempre mudam a cada olhar e criam momentos de interrupção. “Onde o símbolo nos leva, a alegoria nos tira” – essa é uma frase de Benjamin, que recordei ao ver o Medo do Escuro. Parece ser preciso sempre voltar ao filme e, a cada nova exibição, buscar outras interpretações. A alegoria é uma resistência ao símbolo. Nada na alegoria é definitivo, assim como as ruínas que povoam teu filme.


As imagens das ruínas me evocam provisoriamente uma sensação de fragilidade e desamparo que sobrevoa Fortaleza, com tantos edifícios e ruas abandonadas. Penso nos lugares de memória, destruídos ou largados à própria sorte, em meio à dinâmica predatória de ocupação dos espaços da cidade, que privilegia a construção de grandes empreendimentos e ordenam remoções a seu bel prazer. Como podemos habitar esta cidade? Como podemos criar bolsões de resistência neste cenário apocalíptico? Não sei se existe uma resposta definitiva, mas acredito que ainda podemos nos contentar com o pouco, com o frágil, construindo diferenças com os resquícios que ficam. Tal gesto é o mesmo do CARA que constantemente arrisca voltar às ruas para coletar os restos deixados pelos outros.


Na exibição em Tiradentes, compreendi que o CARA é o herói de Medo do Escuro e acredito que somos todos heróis da nossa própria história. Vivemos da coleção destes fragmentos de afetos, de lampejos intermitentes que aparecem e desaparecem – é tão lindo o jogo de espelhos, reflexos do sol e brilho nos corpos do filme. Parecem vislumbres de um possível que nos permitem continuar, a dar mais um passo, a não ceder diante das ameaças. Nos momentos mais críticos, há sempre a queda, mas algo nos impulsiona a recomeçar. Mesmo com o corpo ensanguentado e sem forças, o CARA é carregado pela GAROTA – justo ela que também tinha acabado de ser agredida e expropriada de seus pertences.


Nesta morada hostil, talvez não tenhamos força suficiente para combater os poderes. Quem sabe tais instâncias de soberania sejam apenas imagens a impor o medo, a tentar nos imobilizar e arrefecer nossos ânimos? Diante da nova barbárie, é necessário um último ímpeto – o arremesso da lança que despedaça a imagem de SCARFACE. Talvez o impulso ainda esteja guardado no corpo e ele precisa extravasar, colocar-se em movimento. Aquela dança descontrolada do CARA é o transe do Jonnata, mas é também seu, do Uirá, do Vitor e da Thais, que tanto engajam o próprio corpo nesta louca construção musical ao vivo. A dança é da equipe do filme, que apostou neste ímpeto em forma de cinema. A dança é um pouco minha também e de tantos outros espectadores que se deixaram envolver. Posso estar apenas sonhando. Talvez um dia eu veja Medo do Escuro outra vez e delire um pouco mais.





 

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