Brasil (2014), de Aly Muritiba

Notas de Resistência (2014), de Luís Felipe Flores e Roberto Cotta

3 fev. 2014

Por Érico Araújo Lima

PRESENTE EM DISPUTA

Durante as manifestações que ocuparam as ruas, sobretudo, em junho de 2013, há algo que desponta com força: uma intensa produção de imagens. Muitas visualidades estiveram em jogo, e o litígio em torno de como perceber os fenômenos que se desenrolavam tornou-se, de forma decisiva, uma questão de imagem. Falar de imagem implica falar de como o olhar enquadra e inventa uma cena. Falar de imagem, nesse processo de disputa, conecta a uma política. As políticas das imagens envolvem formulações sobre o dizível e o visível. E dois filmes exibidos em Tiradentes expõem de forma bastante clara essa operação litigiosa. Brasil, de Aly Muritiba, aposta em emblemas, em uma ficção que aponte para um todo. Notas de resistência, de Luís Felipe Flores e Roberto Cotta, tem o caráter de rascunho, num gesto mais atento ao fragmento.


Essas duas abordagens marcadamente diferentes, que partem de apostas distintas em termos de caminhos de cinema, já se anunciam nos títulos das obras. No filme de Muritiba, o horizonte é a Nação. As imagens querem nos dizer algo que possa dar conta de uma escala macro, trabalham com esquemas e tipos gerais. Personagens e situações tornam-se meios pelos quais se passa apenas para chegar à abstração do que seria o Brasil, do que seria um resumo dos conflitos do País. Quando vamos para o curta de notas, já estamos em outro regime de imagem, que não tem qualquer pretensão teleológica nem alegórica, que não aponta para uma unidade final, mas que só pode existir como tateio, como desejo de apontar para possibilidades e para uma multiplicidade. As resistências se dão não mais no transcendente que estaria no horizonte de uma Nação, mas na imanência de vidas singulares.


Essa clara distinção está certamente nas próprias premissas estéticas e políticas de cada obra. Logo, não cabe aqui propor a operação de uma ao trabalho da outra. Mas colocando-as em contato, talvez seja possível explicitar o que está em questão na própria tentativa de se aproximar dos processos de 2013, que reverberam também neste ano. As lógicas de fabricação desses dois filmes, tão diferentes entre si, talvez possam indicar também o quanto a disputa de sentido ainda é uma fratura exposta, uma luta que não cessa de ser lançada em movimento. O caminho de Aly Muritiba flerta quase com uma postura militar, como bem pontuado por uma provocação feita em um dos debates mais acalorados da Mostra. Já Luís Felipe Flores e Roberto Cotta trabalham com gestos mínimos, com uma atenção ao pequeno e àquilo que resiste fazendo-se como desajuste em relação ao maior, aos estados que se pretendem consensuais. E no olhar para as intermitências que ocupam as ruas, é o próprio filme que também se constitui em outra lógica de produção, em outra modalidade de sensível, tomada pelas forças do mundo e agenciadora de um atravessamento com esse mundo.


A construção ficcional de Brasil lida com a dicotomia, numa encenação que busca conectar-se com a experiência do presente via redução do complexo, para que ele possa caber em dois lugares bastante marcados. O universo familiar é o ponto de origem de que partem dois seres que estão em um mesmo palco, mas que, como num jogo de batalha em que tudo está bastante discernível, se apresentam em posições completamente polarizadas. Os dois irmãos se deparam em uma sequência que talvez resuma todo o filme. Um é policial e está com a arma em punho apontando para o outro – e também para o espectador. Em um nível mais alto, ele olha para o irmão, que está com um coquetel molotov. O jogo de plano e contraplano tenta estabelecer a tensão que é de todo já bastante evidente. Há espera, troca de olhares, intensificação de um clima. E parece que se aponta aqui para uma tipificação do que se passa, para um rápido resumo do que estaria em questão nas ruas. Parece se constituir um olhar completamente externo, que tem um anseio de falar daquilo que se passa, mas que só consegue fazer isso a partir de estruturas pré-existentes, nas quais caberia apenas encaixar o universo retratado. É um filme ordenador: ele acredita que se relaciona com a experiência histórica tornando-a inserível em todo um campo de codificações. É um filme de hierarquias: ele se coloca sobre o mundo, quer refletir sobre, montar uma estrutura que tenha uma centralidade discursiva e representativa.


A relação com o presente investigada por Notas de resistência se dá como descoberta na própria imagem das faíscas que podem apontar para outros mundos possíveis. Quando estamos já de início colocados nas ruas de Belo Horizonte, em pleno confronto entre manifestantes e policiais, é o fluxo dessas visualidades carregadas de calor que conduzem a montagem. A obra nos mostra que os corpos não podem ser colocados em esquemas, porque eles são sempre inquietos, embaralham a cavalaria, desconcertam os escudos dos batalhões e desorganizam qualquer instância que busque representar aquilo que irrompe. É com a consciência de que a imagem não deve subordinar o mundo em uma imagem total que os realizadores experimentam uma imagem-rascunho, que não pode fechar extremidades, mas só pode ser abertura constante das próprias bordas. E o mergulho nas resistências escapa à escolha das manifestações como o emblema, porque a cidade é tomada por desejos, nas praças, nas relações cotidianas, nos seres que habitam as ruas, no esforço materializado no Espaço Comum Luiz Estrela, experiência de Belo Horizonte que também surge nessas notas. Fragmentos de resistência existem enquanto impossibilidade de centros, tensão com a ordenação da experiência e com a hierarquização de temas, tipos e acontecimentos. Não é o presente que vem ser inserido a uma estrutura fílmica dada, mas é o filme mesmo que deseja se inserir no movimento do presente, sempre tateante, sempre por se inventar.



 

REVISTA SOBRECINEMA