CONHEÇO O MEU LUGAR

Rua Rio Pardo (2016), de Luciana Rodrigues 
Topofilia (2016), de Amanda Pontes e Michelline Helena

14 ago. 2017

Por Camila Vieira

Tanto em Rua Rio Pardo quanto em Topofilia, o primeiro plano é de uma janela. No
primeiro filme, a visão externa da janela de uma casa. No segundo, a vista interna da
janela de um prédio. A janela aponta para a conexão de um lugar com uma mirada, a
possibilidade de enxergar um horizonte, a abertura para o mundo. Em Rua Rio Pardo,
de Luciana Rodrigues, a janela fechada é o ponto de partida para se jogar na rua e
começar uma trajetória de encontros com moradoras de uma comunidade, ameaçada
pela demolição de suas casas. Em Topofilia, de Amanda Pontes e Michelline Helena, a
janela aberta é uma ponte para conectar a intimidade com o exterior e se aproximar do
modo particular como quatro jovens vivenciam a cidade onde decidiram morar. Mesmo
com procedimentos distintos, Rua Rio Pardo e Topofilia são filmes com mulheres (as
realizadoras e as personagens) implicadas pelos laços de pertencimento com seus
territórios, pelo amor a um lugar, como bem explicita o título do segundo filme.


Rua Rio Pardo traz em seu próprio nome o endereço onde irá aproximar seu olhar. O
início do curta já acena para esse desejo de aproximação: uma câmera GoPro é acoplada
a um carro, que sai da garagem de uma casa até chegar à rua do título, que fica a poucas
quadras da origem do percurso. Na sequência, vemos o mapa do bairro Vicente Pinzon,
enquanto a realizadora indica a localização da casa onde morava com os pais e a
proximidade com a rua Rio Pardo, na fronteira entre a Varjota e o Papicu. Trata-se de
um espaço ligado às lembranças de infância da realizadora, uma área em constante
transformação e afetada por projetos de requalificação urbana de Fortaleza. Paralela à
linha do trem, a rua Rio Pardo é repleta de casas que estão sendo demolidas para a
construção de um muro de contenção para garantir a passagem do VLT. Ao passar pela
rua, deu-se encontro com Patrícia e com a vizinha Rosa, que são as personagens
principais do curta.

Durante os encontros com as mulheres que ainda moram naquela rua, Luciana e sua
equipe se deixam conduzir pelo tempo necessário para que as relações se desdobrem. As
personagens ficam cientes do processo do filme, que vai se amalgamando ao modo de
socialização das moradoras. A equipe toma o café da tarde na casa de Rosa e cria
aproximações com a personagem, que gosta de receber os vizinhos em casa ou reunir
todos em pequenas celebrações na comunidade. Aos poucos, os relatos em torno do
passado do bairro vão se sucedendo, dimensionando o imaginário de como se deu a
ocupação daquele lugar e quais disputas ainda estão em jogo.


Rosa e Patrícia guardam boas lembranças da rua onde moram e viveram durante 30, 40
anos. A moradora mais recente – identificada apenas nos créditos finais – só deseja
partir, porque já absorve as precariedades de uma rua que, aos poucos, foi perdendo
suas potencialidades pelos efeitos das remoções e da mobilidade urbana. No entanto,
Rosa compartilha as muitas histórias que viveu naquela rua – a morte do filho, o
casamento e a separação do marido, as festas com a vizinhança –, enquanto os amigos
passam na calçada e a cumprimentam. Patrícia diz que a rua é seu “pedacinho do céu”,
onde criou seus filhos e ainda pode deixar a porta encostada. Mas é a fala de Inês que
deixa entrever a afeição pelo bairro, o receio da perda das raízes e do lugar onde todos
cresceram. É de Inês que parte o canto de Coração de Papel, a música que guia o
prólogo do filme e serve de diapasão emocional do que irá acontecer.

Girls Just Want to Have Fun é a canção que embala o desfecho de Topofilia, um filme
perpassado pelas conquistas e sonhos de jovens mulheres que deixaram Fortaleza para
morar em outras cidades e abraçar novas oportunidades. O documentário ganha
escritura ensaística a partir de seu próprio dispositivo: as imagens e as falas foram
gravadas pelas personagens – Ana, Rafaela, Shaula e Virna – como registros do
cotidiano delas mesmas, a partir de suas câmeras portáteis. Com o material bruto dos
arquivos pessoais feitos para o filme, Amanda e Michelline costuraram uma narrativa
que aproxima a trajetória de vida das quatro mulheres e suas relações com os lugares
que decidiram habitar.


Ana mora em São Paulo, Rafaela em Barcelona e Virna em Porto Alegre. Shaula
considera a mochila seu lugar de morada, já que ela constantemente migra de uma
cidade a outra do mundo, por trabalhar embarcada em navio. Mesmo sentindo saudades
e ainda recordando Fortaleza como lugar de construção de vínculos, as quatro nutrem
sentimentos fortes de pertença com os territórios onde vivem. Elas narram as
experiências pelas quais passaram, os desafios de estar longe da família e dos amigos, a
reconfiguração dos modos de vida em um novo ambiente, que garantiu cruzamentos
com outras pessoas e acontecimentos. Não sentem vontade de voltar a morar em
Fortaleza, pelo menos por enquanto. A cidade de origem parece fazer parte de um
passado longínquo, em que é possível visitar, mas já não mais pertencer.


Virna encontrou em Porto Alegre o lugar mais distante onde poderia estar, sem um
motivo grandioso, apenas absorvida pela vontade de estar longe, mesmo com um preço
alto a se pagar. Ana tenta a carreira de atriz em São Paulo e, mesmo sem se sentir
estabilizada profissionalmente, prefere continuar na cidade grande. Rafaela sente que as
coisas que ficaram para trás são ilusão e que chegou a hora de aceitar as outras
oportunidades que acontecem. Shaula acostumou-se à vida em trânsito contínuo e
coleciona fotografias dos lugares por onde passou.


Se Rua do Rio Pardo é um filme tensionado entre o apego que as mulheres conservam
por suas antigas moradas e o anúncio de uma ruptura iminente, Topofilia é um filme
marcado pela cisão, pelo deslocamento, pelo corte das mudanças. De um lado, a
necessidade de permanecer, de resistir em um lugar que irá se transformar. Do outro, a
vontade de criar novas trajetórias em outros lugares, de ir embora e se desprender das
raízes. Nos dois filmes, a noção de casa não dispensa as complexidades da construção
de territórios e os atravessamentos que eles constituem.

 

REVISTA SOBRECINEMA