19 nov. 2011

Por Bruno Reis

TERCEIRO DIA

No texto sobre o segundo dia do Nóia, o Érico Araújo Lima faz uma possível divisão entre filmes ‘maiores e menores’ dentro do festival, no sentido muito mais dos modos de produção do que de algum tipo de valoração. No último dia de exibição essa diferença me parece ainda mais radical. 


É curioso, por exemplo, que é um dos filmes, A menor distância entre dois pontos, coloque em sua sinopse o suposto orçamento de quatro mil reais, enfatizando sua marginalidade frente a certo tipo de cinema, enquanto todos os filmes cearenses na competição contaram com zero recursos, ou quase isso. Tal diferença não torna, obviamente, o primeiro em um filme industrial, mas diferencia-se bastante do modo de fazer local, ao mesmo tempo em que não traça um diferença estética definida por limites geográficos nordeste/sudeste.


Alguns dos filmes curitibanos selecionados para o festival, por exemplo, possuem a mesma economia de recursos, que não é simples questão econômica, mas uma opção de fato, ou uma escolha pelo que fazer com esses recursos, optando pela construção de linguagem a partir da escassez e não escassez de linguagem.


O garoto, o mar e o velho, de Marisa Merlo, curta que abriu a última sessão, é talvez o caso mais extremo dessa economia. São basicamente três planos em que vemos, como sugere o título, um menino e um senhor passeando juntos na orla da praia.


Registro de uma cena qualquer, se não fosse pela potência da imagem e na aposta aparentemente ingênua de ater-se aquele momento. Os dois caminham lado a lado, agasalhados. Em dado momento, o garoto se arrisca andando no parapeito de uma espécie de barragem e o velho em vez de censurá-lo lhe dá a mão para que o menino possa seguir sua aventura em segurança. O garoto claramente precisa andar mais lento do que gostaria, porque esse é o tempo do avô. O provável avô, aliás, que também ajusta seu passo para poder acompanhá-lo.  O menino parece à vontade, apesar de nunca sair de muito perto do senhor. É uma possível dança de encaixe e desencaixe de tempos mediados pelos afetos, potencializado pela contenção da câmera e simplicidade da montagem.


O afeto é também mote de A fábrica, de Aly Muritiba, mas dessa vez como contraponto à dureza do mundo, aqui representado por um presídio em uma estética hiper-realista, aparentemente filiada ao que se tornou quase um gênero no cinema nacional que são os filmes sobre a violência urbana. Há um clima de tensão, um apego pelo grotesco e uma construção narrativa que tenta ao máximo surpreender com seu final melodramático, transformando toda a dureza da vida na prisão como contraponto à motivação de seu personagem principal. Talvez uma tentativa de arrebatar a platéia, mas que parece se desviar das questões que ensaia abordar em prol de uma adesão forçada ao sentimentalismo.


Nesse sentido, talvez seja possível um diálogo com Monja, de Breno Baptista, que constrói justamente o caminho oposto. Em vez de contrapor a fragilidade à casca criada pelo personagem do curta anterior, tenta tornar palpável a própria fragilidade através da excessiva dureza e contenção de sua atuação. Centrado no trabalho de sua atriz, Andréia Pires, o curta consegue resolver sua dramaturgia sem apelar pra convenções melodramáticas, apesar de conseguir evocar solidão e tristeza com enorme intensidade. Em dado momento a personagem tem uma aparente tentativa de reação, somente para terminar ainda mais afundada em sua própria dor, o que talvez desmobilize outras possibilidades de significação para sua própria trajetória e transforme o filme mais em uma expressão da tristeza do que uma reflexão sobre ela.


Zeit to the geist, de Diogo Faggiano, é uma espécie de filme-ensaio sobre o espírito da revolução nos dias de hoje, construído a partir de imagens de arquivo da história do cinema e uma narrativa non sense sobre guerrilheiros em uma São Paulo apocalíptica. Hábil em manipular a montagem criando situações absurdas, o curta brinca com os clichês da história do cinema, mas parece evocar esse espírito de revolução como mais um fetiche em meio a tantos outros dentro da contemporaneidade, sendo difícil dizer o que justifica tantos arroubos de linguagem.


Outro curta igualmente alegórico é A menor distância entre dois pontos, de Breno Nina e Elias Guerra, em que dois suicidas resolvem explodir uma ponte de Brasília, enquanto inúmeras situações cômicas parecem impedi-los de dar cabo a seu objetivo, uma espécie de paródia política da cidade ou do próprio país. Estruturado em gagues cômicas e numa linguagem bastante televisiva, o curta faz uma aposta um tanto confusa, que acaba por esvaziar  sua potência narrativa.


Por último, No lugar de todos, de Laura Montalvão, parece também fazer uma crítica do lugar onde o realizador vive, tentando desmistificar a imagem um tanto higienizada de Curitiba ao promover um trajeto pelas ruas decadentes do centro da cidade. Acompanhando uma personagem que pouco parece se afetar pelas figuras marginalizadas com que se depara durante sua caminhada, o filme parece, com sua construção banalizada desses personagens, mais indiferente a esse universo do que a própria indiferença que pretende criticar.




 

REVISTA SOBRECINEMA