E (2014), de Alexandre Wahrhaftig, Helena Hungaretti e Miguel Antunes Ramos

2 fev. 2014

Por Érico Araújo Lima

PERTURBAÇÕES DO ESTÁTICO

Quando um carro sobe um prédio pela mediação de um elevador e chega ao apartamento, desembocando no interior de uma casa, talvez tenhamos chegado ao extremo de um processo de ser apartado do mundo. Esse momento surge em E, após uma série de imagens que nos apresentam uma cidade tomada por estacionamentos. Existe um desejo dos realizadores em compor blocos e associações entre eles que possam pensar um mundo instaurador da clausura, um mundo em que se intensificam processos de apagamento da presença dos seres no espaço. Vemos carros e os lugares modificados para abrigá-los. Ouvimos vozes.


Alexandre Wahrhaftig, Helena Hungaretti e Miguel Antunes Ramos trabalham com muito rigor a composição do plano e tornam presente na imagem uma cidade que parece bastante preocupada em ter lugares para ficar parado. É recortado um aspecto de São Paulo que faz ver toda uma lógica de relação com o mundo marcada pela falta de contaminação. O corpo precisa de carros para se deslocar separado do entorno, supostamente seguro em uma redoma, e esses veículos demandam o esvaziamento de grandes terrenos para que possam ficar neles, imóveis. Estacionar passa a ser o imobilismo que a própria lógica da motorização faz surgir. O imperativo é ficar estático.


E então o que o cinema vem fazer é justo por em movimento. É explicitar uma relação com o urbano para inquietar o corpo que se coloca diante da imagem e na cidade. E parece saltar aos olhos logo quando os primeiros instantes de filme se desenrolam. Ele vai se construindo com muita paciência, quase sempre com recortes dos estacionamentos, mostrando carros em série. Carros e mais carros parados. Filas, blocos, imagens duras. Há uma insistência na busca, no acúmulo de conjuntos que se intensificam na imagem. Ao recortar o aspecto, ao colocar juntos os blocos, ao evidenciar que o visível está tomado por formas que têm poucas variações – essencialmente metais sobre rodas de borracha –, o filme opera uma imagem que resiste justo à fixidez. E faz isso com procedimentos marcadamente de cinema, com um desejo de inserir-se no mundo e de tornar sensível uma lógica a partir da pesquisa de um clima e de uma visualidade que só podem existir porque o cinema colocou-se em direção a esse universo. Ele apostou em observar, em enquadrar e em montar.


É inevitável não lembrar Em trânsito, de Marcelo Pedroso, filme também exibido em Tiradentes. As duas obras se preocupam com um gesto crítico, com a explicitação de um processo de esquadrinhamento da cidade, mas cada um se articula em chaves bastante singulares. A força e o impacto do trabalho de Pedroso estão profundamente afirmados na convicção de posições que são manifestadas em violento gesto de atirar nos alvos que precisam ser atingidos. Quando vamos para E, é outra a toada (vale reafirmar: não cabe pensar em gradações de valor entre os dois gestos, porque se trata aqui de identificar muito mais as singularidades de cada obra). Há quase um minimalismo na postura do curta paulista, que está preocupado menos em demarcar uma frente contra aquilo que é filmado do que em montar um terreno, cartografar o entorno daquilo que tem diante de si. Os realizadores percorrem esse mundo, traçam um perímetro da extensão do que veem, identificam o alcance dessa experiência observada. Eles elaboram um cinema de sutilezas, atento às configurações do corpo urbano.


O clima é fundamental nesse processo. Na investigação do espaço, é preciso formular maneiras de experimentá-lo. E se há uma opressão na dureza do que vemos, é preciso que isso se faça como sensação. Quanto mais somos jogados nesses lugares de clausura – ou mesmo nos que são abertos, mas isolados da paisagem urbana, estranhos a ela –, há um adensamento de atmosfera. É nesse sentido que tanto a montagem quanto os blocos são muito mais marcados por uma relação de vibrações, de como uma unidade reverbera na outra, de como os tempos do plano ressoam quando ele permanece na tela, do que no investimento em uma organização de sentido. E aqui mais uma vez, parece existir uma distinção em relação à operação de Pedroso, que parece trabalhar numa linha de associação intelectual e da exposição de uma costura pautada por um raciocínio.


Isso não implica dizer que E não é também uma tomada de posição. Os realizadores não se isentam diante do que estão fazendo. Mas é no gesto mesmo de constituir a imagem que se passa pouco a pouco a uma postura. Um dos estacionamentos encontrados pela equipe é um antigo cinema. Numa das vozes em off – que perpassam todo o filme, sem que nunca um sujeito apareça na tela –, podemos saber a disposição dos lugares, o conjunto de experiências possibilitadas pelo que ali havia antes. À esquerda, à direita, cada canto possuía uma experimentação da vida. E na imagem vamos para cada um desses lugares do antigo cinema, de modo a perceber agora a fixidez de um carro, com seus faróis, vidros, metais. Essas relações da imagem com o som não se dão como forma de ilustração nem de ostentação de um discurso, como se pudesse dizer “veja como tudo mudou”. O que se passa é uma tentativa de a imagem colocar duas experiências de sensível em fissura, explicitada sempre como gesto fílmico.


À fixidez dos estacionamentos, o cinema pode impor um movimento. As formas que se inventam em visualidades e sonoridades não deixam que se fique parado. Porque filmar é já se dispor ao deslocar de si para o mundo. Produzir olhar é sair, mexer, tirar do lugar e colocar em outro. É trazer as imagens do Google Street View para que entrem em defasagem com as imagens que os realizadores captaram nas ruas de São Paulo. A comparação com um passado tão recente e tão veloz em se alterar é sintoma cristalizado no visível daquilo a que as cidades são submetidas. Uma imagem se sobrepõe a outra para fazer com que nova maneira de ver se abra, para que uma experimentação diferenciante se insinue, a partir daquela esquina que agora virou lugar para o estático. O movimento de E se dá para que o trabalho do olhar torne possíveis saídas das clausuras. Talvez para que o “E” do título, que remete a “estacionamento”, possa ser modulado em um outro “e”, um que chame sempre mais alguém para junto, a rua e as pessoas, o filme e a vida.


 

REVISTA SOBRECINEMA