ESQUADRINHAMENTOS E DEAMBULAÇÕES

A fera do clima (2016), de Andréia Pires e Lucas Girino
Fortaleza Idade Média (2016), de Eric Barbosa


3 out. 2016

Por Bruno Reis

Esquadrinhar o espaço com o corpo. Deambular por uma cidade. Pensar uma sessão de
cinema é sempre tentar formular aproximações, tensionar diferenças. Fortaleza Idade Média,
de Eric Barbosa e A Fera do Clima, de Andréia Pires e Lucas Girino são filmes que lidam com o espaço de maneiras muito diferentes, mas me arrisco na formulação de que são duas obras
que tentam, cada uma à sua maneira, construir uma dramaturgia do espaço.


Em Fortaleza Idade Média temos dois movimentos. Primeiro o de um título- metáfora, que
tenta articular junto com a trilha sonora uma espécie de narrativa sensorial, um modo de
perceber um espaço. Um movimento que não se completaria, sem um segundo gesto, o do
esquadrinhamento de dois espaços bastante específicos, a Catedral da cidade e um cemitério. Esses dois gestos, é claro, são simultâneos. O segundo, porém, o de traçar de maneira minuciosa secções e perspectivas do espaço, me parece que se submete de certa forma ao
primeiro.

De traços góticos, a catedral, mesmo em dia de chuva, contrasta com a luz forte do sol de
Fortaleza. Sua superfície externa, puída, escura, parece à parte do interior, quase clean, meio
sala de estar de médico. Que Fortaleza é essa que o filme vai revelando?

Existe um percurso que vai de um espaço religioso ao cemitério. O medievo é, de certa forma, construído como espaço de decadência, monumentalidade esvaziada da presença humana. Há uma potência sensorial muito forte na maneira como trilha e imagem se articulam. A banda sonora cria uma narrativa, de fato uma outra temporalidade que não a da duração cronológica.


O curta trabalhar com um rigor de enquadramento que constrói uma espacialidade própria do filme, mais do que simplesmente registar um espaço. A catedral vira de ponta a cabeça. Há um olhar que produz experiências de sufocamento e amplidão, desnorteamento, se descolando de uma representação euclidiana do espaço. O quadro produz volumes, vertigens, assim como a trilha produz um discurso. Um discurso sensorial, que escapa inclusive da metáfora da cidade como espaço medieval. Há uma dissonância possível, quando a música se liberta da excessiva harmonia imposta pela Igreja. A dissonância era proibida no medievo. É ela, também, a base do heavy metal.


Outras estratégias aparecem em A Fera do Clima. Andréia Pires e Lucas Girino percorrem, em plano-sequência, o espaço de um apartamento. A partitura desse percurso é feita de
rolamentos, suspensões, trepadas na parede, nos móveis, nas portas. Há basicamente uma
exploração intensiva das superfícies de uma habitação e dos corpos dos performers. O jeito de fazer o reconhecimento do apartamento é rolar junto, até que as roupas todas saiam,
enquanto luzes de strobo e a música eletrônica intermitentes acompanham esses corpos.


Existe um terceiro corpo ali, que é o corpo da câmera. Sempre muito próxima, em planos
médios, ela acompanha o encontro dos corpos dos performers enquanto deambulam pelo
espaço. Embola-se junto com eles. Se em Fortaleza Idade Média há um itinerário claro a ser
seguido, o percurso desses três corpos, performers em quadro e performer-câmera, é
desencadeado por acidentes, acidentes causados pelos encontros entre os corpos e o espaço.

Há uma dramaturgia que vai da sala ao quarto, do espaço menos íntimo ao mais privado.
Quando falo dramaturgia não falo de narrativa, necessariamente, mas de uma articulação de
sentidos. Começam vestidos e terminam nus. Um corpo designado ao nascer como mulher e um outro como homem. Casal? São homem e mulher, mas não representam homem e mulher. Estão ali se apresentando: apresentando-se ao espaço, esfregando-se.


Transa-briga-foda. Nenhuma das coisas: rolamentos, suspensões, apoios. Uma playlist de
música eletrônica. Não há som direto. A música dita um ritmo, o corpo se afeta por ela. A
música no filme é o strobo. As luzes no apartamento se afetam pouco pelos corpos. Em um
momento piscam, quando os corpos já estão nus. Há uma boite dentro de um quarto. Um
corpo começo, meio, e fim de festa. Perambulamos pelo apartamento, corpos que não
aguentam mais.

 

REVISTA SOBRECINEMA