CINEMAS-ENIGMAS

Maíra (2015), de Caio Mota 
O meu lugar (2014), de Luana Sampaio, Vitor Oliveira e Tatiana Ferreira
Pico alto (2015), de Chinfrapala 
Enquanto espero os pássaros da alvorada (2015), de Ythallo Rodrigues 
Não temos receita (2015), de Ângelo Sousa

5 out. 2015

Por Érico Araújo Lima

Nas suas consideráveis diferenças, os filmes reunidos para essa sessão do Cine
Caolho acabam formando um inusitado percurso dramatúrgico por modos de
perturbação da nossa experiência habitual, seja se considerarmos aquilo que seria
localizável em uma dimensão interna à cena, seja se nos referirmos à própria
estranheza que se cria entre as formas do filme e a sensibilidade do espectador. Ao
transitar pelas estratégias de cada trabalho, estamos também diante de uma
variedade de potências e limites desses gestos de cinema. Cada um desses curtas
arrisca um exercício expressivo particular, para solicitar diferentes formas de
engajamento por parte do espectador. Eles nos demandam – dos nossos corpos –
modos variados de envolvimento, numa travessia que segue tanto narrativas bem
marcadas quanto apostas mais sensoriais, que chegam mesmo a desembocar em
investidas deliberadamente selvagens nas formas do vídeo. Se a heterogeneidade
das experiências é desafiadora, a conversa aqui precisa tentar fazer também um
trabalho de remontagem e traçar imaginariamente mais um fio dramatúrgico, que
parte de uma aposta: a de que um dos percursos possíveis por esses filmes tem a
ver com o adensamento de estranhamentos como construção mesma da imagem.
Dizendo de outro jeito: vou tentar pensar, muito precariamente, algumas linhas de
força que consigo acompanhar no contato com os gestos desses filmes ora um
tanto desconcertantes, ora um tanto sem lugar, ora um tanto com o lugar já muito
esquadrinhado.


Começaria por um fio que vem da estratégia em compor a marcação forte no
terreno da ficção. Em Maíra, de Caio Mota, o problema a mover a narrativa é
lançado desde cara. Há um sonho perturbador que projeta uma situação
desconcertante: durante o sexo, Maíra se vê matando o próprio companheiro,
Ângelo. Se essa estranha imagem é comum aos sonos dos dois, ela não é tão
alarmante para Ângelo quanto é para Maíra. Estamos já situados no terreno de
expectativas que vai animar a intriga, o jogo de ocultação e desvelamento, de
frustrações e surpresas. Há uma inquietação fulgurante a rondar a trama, e ela se
torna ameaça justo porque entra numa zona de indistinção entre o estatuto onírico
e o anúncio premonitório de um porvir. É em torno desse motivo que se move o
esforço do filme em constituir drama, atmosfera e movimento narrativo, numa
sucessão de eventos que tentam condensar uma angústia psicológica nos
personagens. Estamos em um terreno de cinema que se afirma plenamente
baseado em uma perspectiva dramatúrgica cuja tática se baseia em um acesso a
interioridades e também na introdução de ações que construam e assegurem a
retenção de um suspense, pela constante iminência de uma virada. O exercício é
potente como anunciador das próprias bases e do próprio empenho em investigar
um campo de possibilidades, ao mesmo tempo em que enfrenta limites,
especialmente quando o esforço parece se restringir a esquadrinhar alguns
possíveis já dados, com a dificuldade para explodir as fronteiras do próprio
território em pesquisa.


Diluindo mais a presença de um personagem na cena, mas também centrado na
interioridade emanada por uma voz, O meu lugar abre o campo para uma

perambulação noturna nas ruas da cidade. Aqui a inquietação parece surgir da
tomada de consciência de que estamos colados a um hipotético ponto de vista
subjetivo de um estuprador. Nesse curta de Luana Sampaio, Vitor Oliveira e
Tatiana Ferreira, são usadas outras estratégias para disparar uma atmosfera de
mistério, contaminada pela ideia de uma escuridão que abriga a solidão e a
experiência de crime. Dissipa-se a abordagem sustentada na interpretação e na
construção mais organizada de personagens, em favor de uma entrega à sensação
de observar a cidade e de inferir da opaca relação com as ruas a ação anônima de
um sujeito. Esse ser meio fantasmático que olha e enuncia se instala numa zona
que chega a beirar a inconstância, ao mesmo tempo em que parece ter resguardado
um lugar de antemão, uma identidade bem construída, que ao filme cabe descobrir
e explicitar.


Em Pico Alto, do Chinfrapala, e Enquanto espero os pássaros da alvorada, de Ythallo
Rodrigues, se acentua a abolição de um fio vertical para ordenar as imagens e os
sons, num manejo mais livre e atonal das formas. Pico Alto se organiza de modo
mais simples, a partir da coleção de imagens vindas de uma espécie de jornada
junto à natureza. Somos inseridos em uma combinatória de fluxos, que parecem
emergir sem grandes pretensões ou desdobramentos, senão como pura vinculação
a um território sensível e à elaboração de uma modesta deriva sensorial. É forte a
crença aqui na possibilidade de uma irrupção de sensações no corpo do espectador
a partir desse canto de imagens a serem postas em variação.


No filme de Ythallo Rodrigues, o terreno de uma condição experimental da arte é
desde já uma premissa, mas agora cabe levar adiante uma operação mais
deliberada que extrai da montagem de fragmentos uma trama de intensidades a
colocar em crise as próprias imagens e o regime de experiência organizado com
elas. Em alguns momentos, temos uma cidade vista por entre frestas, de onde
somos arremessados para a incidência selvagem de efeitos sonoros que
desarranjam palavras, desfazem sua clareza e abolem continuidades das frases
visuais em benefício de puros ruídos assignificantes. O exercício da liberdade
formal se arrisca aqui a oferecer uma experiência que não está plenamente
acomodada a um estado de fruição pré-estabelecido, a partir do empenho em
pesquisar lugares imprevistos para o trabalho do espectador.


E aqui é como se o título do filme de Ângelo Sousa fosse bastante sintomático de
uma curva que seria possível tomar desse fluxo de filmes, em direção a um desejo
de explorar territórios sem gramáticas esquadrinhadas exaustivamente. Não temos
receita é como uma declaração de princípios, uma reviragem de sensibilidade que
se apresenta de modo bastante intenso e, literalmente, visceral. Tripas se colocam à
mostra, e somos confrontados por uma experimentação punk dos recursos
expressivos do vídeo caseiro, abertamente precária e excessiva. Há aqui um frescor
que parece ser atingido com extremo desejo e disponibilidade de entrega. As
texturas das imagens e os gestos performáticos em cena se transformam em
modos de estremecer o quadro, de engajar o espectador pelo estômago e de
produzir verdadeiros efeitos de vertigem. Tarefas sempre ricas para o cinema,
essas de convocar o espectador para sua escritura: nem tanto para um jogo de
aderência, mas talvez justo para garantir a possibilidade de um lugar inquieto.

 

REVISTA SOBRECINEMA