Se Deus vier que venha armado (2013), de Luiz Dantas

9 set. 2013

Por Érico Araújo Lima

DE FILMES QUE FUNCIONAM

Há filmes bem redondos, filmes que funcionam. Mas o que eles podem inventar? Se eles são redondos e funcionam, eles cumprem um percurso esperado, organizam muito bem os elementos de um roteiro, trabalham a luz, a cor, o plano, de forma bem correta. São montados de forma bastante precisa e marcada por uma estrutura codificada. Eles se processam como caminho de cinema que está bastante conformado com um determinado campo de possibilidades. Mas, quando se trata de pensar a cena que eles elaboram sobre a cena em torno da qual eles giram, é preciso pensar também as implicações, no âmbito ético e político, das apostas estéticas. Se Deus vier que venha armado (Brasil, 2013), de Luiz Dantas, se propõe abertamente a exercitar uma narrativa clássica e a ser um exemplo de determinada forma de fazer cinema. Parte da própria tese de doutorado do realizador, que se dedicou tanto a um estudo de concepções de roteiro cinematográfico e de narrativa clássica, quanto a certa ideia de aplicação no desenvolvimento de um roteiro chamado Cléo e Damião – que na obra fílmica final, corresponde aos nomes dos dois protagonistas.


Uma estrutura dramática múltipla arranja tramas que seguem no contínuo do filme, sempre na perspectiva de um entrecruzamento, na direção de momentos de clímax, de tensão e apelo maiores. Os recursos estilísticos são marcados pela própria lógica do bom funcionamento da obra, para que ele traga efeitos sobre o espectador, tenha uma eficácia. Vai ser preciso colocar o policial novato em meio à favela, sozinho, olhando os moradores que jogam futebol, respirando ofegante, isolado e com planos que reforçam o olhar. Esse mesmo personagem é todo construído em torno de uma psicologia, dos sentimentos que teria diante da violência, da experiência que vai apreendendo na nova rotina. Alguns momentos vislumbram gestos, gestualidades sem fim e cotidianas, sobretudo quando ele está em casa, quando anda pela rua escura em que mora – são justo os momentos em que parece haver algo do abrigo e da forma de existir daquele corpo, momentos potentes que apontam para outros possíveis de olhar para os personagens.


E ainda no intuito de supervalorizar ações da estrutura dramática, há uma preocupação em retardar o tempo da cena do clímax final, com uma trilha sonora bastante marcada por batidas de tensão, com plano e contraplano em personagens que se tornaram, ao longo de todo o filme, seres em oposição, na lógica dicotômica e com poucas nuances das crônicas consensuais. E a marca que esse lance final do diretor oferece parece ainda tratar de uma inevitabilidade de certos caminhos. A própria lógica de fazer surgir aqui uma imagem que era evocada no início – uma moça que pedala uma bicicleta pela rua – parece também dizer que a encenação do momento trágico iria, fatalmente, se dar. E parece dizer que a cena é, efetivamente, uma amarra sem bifurcações possíveis, um trajeto inequívoco. Aos seres que habitam a cidade, só cabe vir armado. Ao tema da violência urbana, à vida dos que vivem na favela, às histórias possíveis dos que estão em meio ao tráfico e aos conflitos urbanos, o cinema só poderia responder com a lógica consensual do caminho único, da montagem que dispersa núcleos, mas amarra e ordena tudo depois em pontos fixos. Seria preciso funcionar bem, porque afinal, o mais importante é como contar uma boa história, que passa por triângulos amorosos, conflitos entre amigos, personagens em crises existenciais.


Há um controle bastante seguro da narrativa, de técnicas, de procedimentos. Mas em que medida isso pode intervir nos modos de estar junto? Talvez a boa ordem seja muito policial, pensando essa palavra num sentido mais amplo, da própria limitação de possíveis para a vida e para o cinema. Qual a cena criada por Se Deus vier que venha armado? Ele parece muito mais desenvolvedor de roteirização, de esquemas e programas. Talvez se trate de uma segurança muito grande quanto a um modo de pensar cinema: um filme bem estruturado, redondo. Prefiro a potente cena final, quando o personagem Palito dança em um palco, num único plano aberto, ao som de hip hop, com uma aproximação da câmera muito sutil e com luzes que se apagam pouco a pouco ao final. Um corpo na cena, inquieto, performático, vibrátil. Ao filme que funciona, prefiro Palito, que manca.


 

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