“SÃO MINHAS MEMÓRIAS DE INFÂNCIA, MAS TAMBÉM FICÇÃO”

Conversa com Janie Geiser 

13 jun. 2018

Por Camila Vieira

A sétima edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba escolheu como principal homenageada a artista norte-americana Janie Geiser. Com experiência criativa em pintura, desenho e teatro de fantoches, Geiser acumula uma extensa filmografia de curtas-metragens, que trazem a colagem, o uso de objetos e a sobreposição de imagens e sons como princípios técnicos de seu processo artístico. A revista Indiewire elegeu Geiser entre as seis mulheres artistas que redefiniram o cinema, no meio de nomes como Maya Deren, Barbara Hammer e Shirley Clarke. Dentro da Mostra Foco, Geiser apresentou um conjunto de seis programas de filmes, que incluem sua própria obra e realizações de outros artistas que ela admira. Durante sua estadia no Brasil para o festival, ela conversou com a Revista Sobrecinema sobre seu ponto de vista como artista.    


Sobrecinema – Em seus filmes, você usa diferentes técnicas, com muitas colagens, objetos abandonados, texturas de materiais distintos. Como funciona seu processo criativo para estruturar um filme?

Janie Geiser – Há muita intuição, mas também muito artesanato. Um filme pode começar com um objeto e o objeto pode sugerir algo para mim. Por exemplo, em A História Secreta (The Secret Story, 1996), a figura do homem e da mulher é feita de madeira. Encontrei em um depósito de antiguidade e parecia com a personagem Branca de Neve, do conto de fadas. Mas também parecia com a minha mãe. E ela teve uma infância de conto de fada, não tão perfeita, mas ela não sofreu de pobreza. Ela não era rica também, mas tinha uma família completa, com muito amor. De certa forma, é como se ela fosse uma personagem de conto de fadas para mim. E ela é muito boa (risos). Ela realmente é uma boa pessoa. Então, comecei a pensar sobre as histórias que eu ouvia dela, das pessoas sobre sua infância, porque é claro que a vida dela não era perfeita. O pai dela ficou muito doente quando ela era apenas uma adolescente. Ele teve um ataque e permaneceu vivo, mas era como se não estivesse presente. Então, também trabalhei com essa ideia. Comecei a ter pensamentos sobre isso e comecei a reunir materiais que eu achava que iriam funcionar com isso. Por coincidência, encontrei outras figuras em madeira, de um homem velho e de um doutor, e aí achei que precisava de uma garota, bem jovem, então encontrei em um velho livro infantil  uma ótima ilustração de uma menina, colei em um pedaço de madeira e cortei. Então, ela se tornou da mesma família das outras figuras. Algumas vezes, eu construo coisas que significam fazer parte do mesmo vocabulário. Ao começar a rodar o filme, comecei a juntar coisas diferentes. Sabe o papel amarelo que faz sombras nela? Aquilo é estampa de papel para ser mais justa, porque minha avó costurava, mas minha mãe também costurava um pouco quando eu era pequena. É como trazer algo da minha própria infância. Minha mãe cresceu católica, então há uma freira e tem outras figuras como soldados, blocos, aviões de guerra, porque ela cresceu durante a Segunda Guerra Mundial como adolescente e o pai dela esteve na Primeira Guerra Mundial. Então, foi como colocar em camadas estes diferentes elementos da biografia dela dentro do filme. Um homem permanece caindo e é o pai dela. Há uma narrativa secreta operando, é claro, mas são também impressões, associações e maneiras de ter muitas formas abertas de construir narrativa ou construir sentido, que pode ser diferente para cada pessoa. Minha mãe cresceu católica, mas sempre teve muitas questões sobre isso. Questões sobre: o que acontece quando a gente morre? Ela tinha certeza de que havia um paraíso, porque ela gostava de pensar que sua mãe estava no paraíso e também seu marido e seu pai e ela estaria lá com eles. Mas ela não está convencida, como muitos de nós não estamos (risos) de que realmente exista esse lugar em que vamos ver essas pessoas novamente. Isso é um pouco doloroso para ela. Ela sempre queria ter essa experiência que confirmasse a ela de que havia algo mais. No fim, há essa figura andando pela floresta e abri um pouco as lentes da câmera para entrar mais luz, então, ela está nessa luz e ela mesma se torna luz. É como se eu concretizasse o desejo dela (risos). Deixei o filme terminar quase como uma revelação. No fundo, são minhas memórias de infância, mas também ficção.


Sobrecinema – Algo que surpreende em seus filmes é o uso de objetos abandonados como coisas vivas. É quase como a sensação de uma criança que encontra um objeto e o manipula. Ela abre aquele objeto e todo um novo mundo aparece ali diante dela. Você também se sente dessa maneira em relação ao uso de objetos nos seus filmes?

Janie Geiser – É como se eu me desse uma permissão de voltar a isso. Acho que sempre coletei objetos estranhos, mas nunca fazia nada com eles. Objetos como pedaços de vidro que via na rua, uma moeda antiga que guardava. Coisas que nem usava e que ficavam ao redor da minha casa. Alguns destes objetos de casa já são meus, mas a maioria eu encontro por aí. Para mim, isso constrói um sentido de brincadeira. No meu processo de trabalho, é um grande prazer ir ao meu estúdio, olhar por meio da câmera e começar a reunir as coisas para fazer os filmes.


Sobrecinema – E o prazer de coletar as coisas do mundo também constrói uma espécie de preservação da memória. Você acredita que seu trabalho como realizadora é uma maneira de inventar estas pequenas caixas de memórias através do cinema?

Janie Geiser – É claro que nem todos os objetos estão conectados à minha vida específica ou à lembrança dela. Mas de certa maneira, eu os uso seja para arrancar minhas próprias memórias ou para de alguma forma criar ficções que parecem memórias. De alguma maneira, eu trabalho com a memória do objeto em si. Ele contém muita informação em si mesmo, talvez uma informação mal interpretada, mas não importa. Estou resgatando tais objetos e dando a eles uma nova vida.


Sobrecinema - Cada objeto tem uma história.

Janie Geiser - Sim. E se você encontra um novo objeto, você também é capaz de dar uma nova história a ele. É do mesmo jeito que as pessoas fazem com uma mancha de tinta (Janie segura um papel, como se ele fosse aqueles testes de Rorschach, feitos com borrões de tinta). É parecido com esses testes em que você diz: “ok, isso é algo!” Em uma das aulas que ensino na escola de arte de Los Angeles, no primeiro dia, eu peço para os alunos trazerem algum objeto que eles gostam muito. Eles colocam no meio da sala e qualquer um pode descrever aquele objeto. Algumas vezes, a gente não sabe muito bem o que é, mas talvez há algum sentido de importância. Algumas vezes, o que um diz é exatamente o que significa o objeto para aquela pessoa que trouxe. Algumas vezes, é até bem diferente. Mas é uma forma de dizer que aqueles objetos trazem alguma informação e tem poder. Como no filme, você vê uma lâmpada e aquela lâmpada cria sentido. Então, acredito que é uma forma de trazer aquele sentido escondido dentro do objeto.


Sobrecinema – Em muitos dos seus filmes, as figuras femininas estabelecem diferentes relações com o mundo, que acabam se conectando à condição da mulher na sociedade em que vivemos. Em O Livro Vermelho (The Red Book, 1996), uma mulher é cortada em pedaços. Em Terraço 49 (Terrace 49, 2004), uma mulher desaparece. 

Janie Geiser – Quando descobri isso (Janie se refere ao dado de que a única mulher super heroína de O Quarteto Fantástico tem o poder de desaparecer e isso influenciou o processo criativo de Terraço 49), pareceu que toda a história da mulher estava contida nesse desenho e a gente cresce com essas ideias e jamais pensa nelas. Imagino que há pessoas realmente empenhadas em desconstruir e pensar sobre isso. Mas, para mim, esse desenho em particular me deixou com essa sensação de “eu não acredito nisso!” É tão óbvio que isso é o que a cultura acredita que as mulheres são ou devem ser. O filme traz isso à tona e diz “olha para isso!”. Como mulher, assim como você é, eu sempre me interessei em ideias sobre representações e novamente em resgatar imagens tanto quanto objetos para trazer seus sentidos e olhar para eles de uma forma diferente.

 

REVISTA SOBRECINEMA