CANTO DO POVO DE UM LUGAR

Guardo tudo nas lembranças que é pra nunca desistir (2016), de Ivo Lopes Araújo
Candeias (2017), de Ythallo Rodrigues e Reginaldo Farias 
Toca Good Garden (2017), de San Cruz e Gandhi Guimarães

2 out. 2017

Por Érico Araújo Lima

O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz:
Eu escuto a cor dos passarinhos.
Manoel de Barros

Um filme pode nos acompanhar de muitas maneiras, depois que saímos daquele
encontro ritualizado da sala escura. Fica um corpo ao lado do outro, prosseguindo
um caminhar – vibração que segue a ressoar. Acontecem variações, outros sons
podem se misturar, mais vozes chegam para se introduzir, outros olhares vão
compor com nosso olhar, mais imagens da cidade se agregam com as ruas vistas na
tela. Por vezes, quando são fechados os olhos, é possível retomar um instante,
como fagulha da memória. É como retornar ao escuro, por um breve intervalo,
para escutar as imagens vistas, ressurgidas-renovadas, sentindo no estômago a
pulsação dos sons, remixados-recombinados. A companhia de um filme pode ser
uma caixa de ressonâncias, um campo de oscilações entre o visto e o escutado,
componentes não-hierarquizáveis de um encontro. De tal maneira a convivência se
instala, entre essas forças que nos acompanham e o nosso próprio corpo, que
talvez só possamos dizer, tateando: você se lembra daquela luz? – aquela ao longe,
que a gente escutou em meio à penumbra?


***

Uma sonoridade pode ser a marca de um conviver. Ouvimos múltiplos modos de
habitar um lugar. Há cantos que são convites para permanecer em um recanto. O
canto é um espaço, o canto é um mundo. “Canto” é essa palavra que, como
substantivo, já pode portar uma variedade infinita de sentidos. “Canto” é também
uma flexão, em primeira pessoa, de um verbo, que pode ser também afirmação, em
fala, em palavra, da ocupação de um território. Reunir-se à noite em volta do rock
se transforma em uma ação cultural, política, estética. No Toca Good Garden, o
encontro de uma galera é expressão do corpo que vibra, do lugar que contagia as
pessoas a se reunirem, a fazerem festa, a defenderem a alegria. Pela escuta atenta
das paredes e das marcas de um lugar, um filme nos envia um campo de
ressonâncias que acentua a experiência de se reunir para estar com a música, para
adentrar a noite, para viver um bairro. Pelo arranjo de imagens e de sons do filme
Toca Good Garden, de Gandhi Guimarães e San Cruz, a experiência do cinema se
configura como convivência afetiva e material no aqui e agora de um pedaço da
cidade. Entre o espaço e o entorno, toda uma rede de linhas é traçada, como um
centro que guia o filme, para puxar fios entre os pontos de venda logo ao lado,
entre as pessoas que chegam, entre o dentro, com roda, música, agitação de luzes e
de danças, e a redondeza habitada, povoada.


***


Velas acesas, uma cidade reza em coro. Candeias, de Ythallo Rodrigues e Reginaldo
Farias, trilha junto, acompanha muito de perto uma caminhada, que se mobiliza
pela fé e que cria também uma experiência de lugar marcada pelo canto. A romaria

entoa os Benditos e é também uma festa, pontuada pelo irromper de fogos de
artifício. Se as velas dão uma cadência para a estrutura do próprio filme, é porque
se trata também de estar junto de uma cerimônia coletiva dedicada à luz, à
confiança nas bênçãos trazidas por Nossa Senhora das Candeias, força de
inspiração para a vida, para a caminhada cotidiana – “No caminho de Juazeiro
nunca ninguém se perdeu / Por causa da luminária da Mãe de Deus das Candeias”.


***


Talvez por uma espécie de associação luminosa e sonora, recordo algumas notas
sobre a melodia das coisas, que foram escritas por Rainer Maria Rilke. Em um dos
fragmentos que escreveu, ele lança a proposta de que, para nos iniciarmos na vida,
é preciso considerar as coisas em dois planos: “primeiro a grande melodia, na qual
cooperam coisas e odores, sensações e passados, crepúsculos e nostalgias; – e
depois: as vozes singulares que completam a plenitude deste coro”.


***


Uma cidade pode ser pensada segundo o tempo dos ensaios. Ao gesto da
composição de uma canção, se articulam os intervalos da intimidade e as texturas
de uma paisagem. Agora ressoam mais de perto as energias de Guardo Tudo nas
Lembranças que é Pra Nunca Desistir, de Ivo Lopes Araújo. É como ouvir as canções
de Cidadão Instigado na cadência de fragmentos de criação. É também ouvir
momentos sublinhados, distinguidos: uma voz mais destacada, sem ter ainda
outros sons, na mesma altura, ao fundo. “Fortaleza eu te conheço, desde o dia em
que eu nasci”. Cidade vista em anotações, convívio filmado ao modo dos diários.


Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
(Manoel de Barros)

Introduzir-se no tempo do ensaio é oportunidade para ver a paragem, para captar
justo uma interrupção, que acontece para discutir como pode surgir uma ênfase
mais aqui ou mais ali, como refazer algo, insistir num caminho, comentar, adensar
um clima, mudar um rumo. É o tempo do ensaio, que se torna tempo da anotação.
Entrar nesse ritmo tão singular só é possível pela cadência daquele gesto de filmar
que, igualmente, anota, que acompanha com intimidade, em rascunhos, a
experiência de conviver.


***


Antes de entrar na escuta do rock, o primeiro plano de Toca Good Garden – visual e
sonoro – é de uma rua, amplitude aberta, linha que se prolonga. A batida da música
só se insere quando foi possível ouvir um pouco também do latido de um cão, dos
sons de pássaros, do anúncio da bike da tapioca. Inscritas ali, surgem também as
letras, que nos dizem: “Bom Jardim”.


***


“Foi-se o tempo e a esperança é tudo que eu aprendi. / Guardo tudo nas
lembranças que é pra nunca desistir”. Como pegar uma lembrança com as
anotações? Acompanhar os gestos de criação de Cidadão Instigado é percorrer
também uma possível textura da memória. Se é que a memória pode ter algo como
uma textura. Se isso for possível, parece que faz muito sentido que seja aquela das
faíscas, do chamuscado, dessas imagens meio ligeiras e fugidias que o diário vai
captando. A experiência sonora e imagética é como que uma fita de dupla face,
envolvendo o mundo, a cidade – nas suas destruições, nas suas recomposições – e a
esfera da intimidade, do cotidiano de criação dos amigos, no espaço da casa, na ida
à praia.


O filme de Ivo começa com imagens de prédios a tomar conta do quadro, num
erguer de concreto a fechar os horizontes. Ao final, essa lembrança, que pode ficar
guardada ao longo do filme, parece reverberar diante do ato de ver outra imagem e
de ouvir a canção “Fortaleza”. Primeiro, é o rosto de Catatau, sua voz. “Quando eu
fui para o concreto eu só queria ver o mar / E era tanta diferença e eu pensava em
voltar”. E então, com a deixa desse momento, o corte introduz o mar e um outro
povoamento de sons. Mas como na música, o que se segue não é a entrega de uma
imagem desejada – impossível apaziguamento. Os prédios retornarão, e a canção
vai nos lembrar, com o filme, da cidade desigual. A lembrança parece se tornar,
simultaneamente, ficção científica. Uma cidade confrontada com a experiência das
ruínas. A criação da música e a do cinema se enroscam aqui uma na outra no
desafio de apalpar o fugidio e de retomar a memória, para intervir no presente.


***


Em Toca Good Garden, é fundamental ouvir as pessoas que produzem o espaço. É
um ir e vir entre os gestos dos que estão na festa e as suas falas que pontua toda
essa experiência de estar na noite. Ouvir um território se compõe de uma
amplitude de camadas sonoras. Raquel vai com a filha ao Toca Good Garden. Ela
nos conta sobre isso. As vozes elaboram na cena mais elementos da partilha de
todo esse conviver. Sair para um sábado à noite se intercala com conversas,
naquelas pausas em que o corpo vai descansar da dança, tomar uma cerveja lá fora,
travar um encontro, para conhecer mais, saber um pouco daquele que foi visto
dançando. O projeto de contar sobre um lugar, por meio da escuta, tem aqui duas
dimensões indissociáveis: é preciso sentir, é preciso conhecer. Construir uma
atmosfera e disponibilizar uma energia se articulam com a necessidade de narrar
sobre um mundo amplo que se faz ali, uma infinidade de práticas que dizem de
uma maneira mesma de morar. É um momento da vida que se mostra, mas é
também um momento atravessado por muitos outros. São os gestos contidos em
cada fala (sobre se deslocar até ali, sobre estar ali), são os tempos da preparação
da festa (e ao final, é preciso também passar a vassoura no chão), são as
reminiscências de uma história (eis uma rede, em que se senta para conversar).
Viver o sábado à noite no Toca Good Garden se elabora, no filme, como uma forma
de organizar uma ampla costura de associações. Do instante vivido – a festa, o
espaço específico de um bairro – ao campo social, o cinema se engaja aqui numa
prática política e cultural de narrar o Bom Jardim, de produzir, em coro, um canto,
o próprio canto.


***


Na companhia dos pontos luminosos, o canto segue, repetido e renovado
constantemente, nos chegando como uma onda magnética, que embala quem vê e
escuta. A escritura documentária tem em Candeias uma sinceridade na sua escolha
de observação, na sua operação que guarda uma distância. Mas uma distância é
sempre relativa e constitutiva da própria operação de se aproximar. O desafio é
investigar os modos de ser honesto com ela. A partir daí, alguma escala de estar
junto se elabora, mesmo que provisoriamente. Aqui os mundos estão reunidos,
mas não misturados, estão aproximados, mas não são coincidentes. Esse
reconhecimento funda a própria força do filme. Dessa não justaposição entre
lugares, é possível extrair a impossibilidade de qualquer tese sobre uma
comunidade, de qualquer totalidade sobre um mundo. É preciso, então, que algo
aconteça à imagem. Como se atravessar pela experiência de um mundo a partir do
que ele emite de ressonâncias?


Na maneira de se aproximar, a estratégia é se contagiar intensamente pelos ritmos
que a romaria cria, pela paisagem que ela povoa. As velas são acompanhadas desde
sua fabricação até seu prolongar pelas ruas – vemos os percursos que as geraram e
também a luz que elas criam, os sons que acompanham, a trilha que traçam na
cidade. Vamos de imagens da multidão, vista em amplitude, para olhares mais
demorados, dedicados a um rosto, a uma voz. Por vezes, em meio ao coro coletivo,
uma maneira de cantar se singulariza. Os passos pelo chão são escutados, enquanto
a câmera vai se inserindo junto aos que andam. É um gesto da companhia, da
tentativa de ir ao ritmo dos que já caminham antes do filme. O que essa experiência
nos pede é também um tempo para experimentar esse percurso. Se filmar puder
ser colocar-se à escuta, o trabalho minucioso de se colocar atento à vibração de um
lugar pode ser uma escala de relação com ele. Uma possível tentativa de fazer com
que, ao acompanhar a caminhada de uma comunidade, uma imagem seja tomada
pelo que reverbera dos passos e melodias produzidos.


***


O que acontece a um filme – e ao corpo que se encontrou com ele – quando capta o
que ressoa de um espaço, de uma reunião de pessoas, de uma convivência num
território?


Sair de uma sessão com o corpo como uma caixa de som, ressonante, vibrante,
pulante.

Aproximar filmes é também uma orquestração sonora.


A saída da sala escura nos projeta ao mundo com uma sensação vibratória, um não-
sei-o- quê rítmico no corpo. Os filmes não nos abandonam, nos seguem com seus
sons. Nos seguem mesmo, talvez, em sonho.

 

REVISTA SOBRECINEMA