“ERA UMA FORMA DE DEIXAR AS COISAS SEGUIREM O TEMPO DA ESTRADA”

Conversa com Brunna Laboissière sobre Fabiana

10 jul. 2018

Por Camila Vieira

Ao pedir carona na estrada, Brunna Laboissière encontrou Fabiana, uma mulher trans que dirigia um caminhão. O encontro por acaso estimulou a jovem a percorrer outros dias de viagem com a personagem. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP), Brunna decidiu buscar formação em audiovisual. Ela desenvolveu projeto no laboratório dos Ateliers Varan para realizar o documentário sobre Fabiana e, com o edital do Rumos Itaú Cultural, conseguiu concretizar o filme que leva o mesmo nome da personagem, em uma jornada pela estrada às vésperas de se aposentar. Exibido na Mostra Competitiva de Longas do 7º Olhar de Cinema, Fabiana ganhou o prêmio do público. Na véspera da premiação, Brunna conversou com a Revista Sobrecinema sobre seu filme e a personagem.

SobrecinemaFabiana é um documentário com foco em uma personagem, que você conheceu por acaso e decidiu acompanhar. Por que decidiu fazer o filme a partir desse encontro?

Brunna Laboissière – Estava pedindo carona. Um dia ela parou e fiquei muito surpresa com ela dirigindo naquele ambiente. Bom, a primeira viagem foi durante dois dias. Isso em 2012. No meio desse processo, comecei a entender a vida dela. Nessa viagem, ela contou muitas coisas, que até muita gente gostaria de ter visto no documentário, como o processo de transição. Mas o filme é como se fosse um encontro entre pessoas que já se conhecem. Nesse processo, eu descobri que a Fabiana era uma pessoa que respondia muito diretamente às coisas. No início, eu queria fazer perguntas muito certinhas, sabe? Tentando tirar as coisas que ela já tinha me dito e que já não funcionavam mais, porque ela já atuava e pensava logo que era para o documentário. Como ela era alguém que falava as coisas muito diretamente, eu pensava que seria um problema a princípio. Imaginava que nunca iria conseguir trazer nada de novo à tona. Mas na verdade, eu fui descobrindo que era para deixar o tempo passar e só então ela lembrava algo que não tinha dito e aquilo reverberava. Então, foi esse processo de entender que as coisas eram mais fluidas na forma de conversar com ela.


Sobrecinema – A partir daí, veio a ideia de tomar a observação como método e menos a entrevista?

Brunna Laboissière – Eu criava situações, jogava elementos para uma hora ela me responder. Mas não assim de forma direta. Às vezes, eu comentava algo e vinha alguma coisa dela. Aí eu decidi também aproveitar o tempo da estrada, já que a gente tinha tanto tempo. Era uma forma de deixar as coisas seguirem o tempo da estrada. Na verdade, o mais legal de viajar de carona é que você acaba conhecendo muito o caminho que você faz. E o caminho acaba sendo tão importante quanto chegar no lugar. As histórias vão surgindo de maneira espontânea. Pensei que seria melhor encontrar uma conversa mais espontânea do que direcionada. Às vezes, ela começava a me dizer uma coisa, mas eu não estava gravando, eu fingia que não escutava, ligava os equipamentos e dizia: “Oi, Fabiana! O que você queria dizer?”  E ela começava a contar uma história no tempo dela. Não só dela, mas o tempo da estrada. Quando a gente tá viajando e olha para o horizonte, a gente tá sempre pensando muito. A gente se lembra das coisas e depois o silêncio vem.

Sobrecinema – Você optou por mostrar o próprio caminhão como a casa dela e, quando ela está em algum ambiente que não é a estrada, é na casa de outras pessoas. Penso que é uma personagem que tem seu lugar no encontro com outras pessoas. Você chegou a filmar a casa dela?

Brunna Laboissière – Tentei fazer um churrasco na casa dela com a Priscila, mas era mais para ver se a Priscila se acostumava com a câmera. Ela se maquiava e fazia várias coisas interessantes, mas depois decidi recortar só a viagem. Não tinha pensado que, em muitos lugares que ela para, é a casa de outras pessoas. Não tinha me dado conta. Mas acho que a Fabiana encara o caminhão como a casa. Talvez seja algo que até falte um pouco no documentário. De ter mais elementos dessa casa, dela cozinhando... Até filmei, mas depois achei que não encaixava na montagem. Os postos de gasolina são extensões da casa também. O banheiro, a área de encontro com os outros caminhoneiros. Acho que a Fabiana não costuma tanto entrar na casa das pessoas. Pensando agora foi o documentário que levou. Eu dizia para ela: “Para todas as pessoas que você gostar e que tem amizade, vamos tentar se aproximar e conversar”. Ela dizia que gostava muito da Betânia e a gente foi lá na casa dela. Depois ela falou da Meire, que aí sim já tinha hospedado ela antes. 


Sobrecinema – Fabiana é uma mulher trans que gosta de mulheres. O documentário dá a entender que ela é respeitada entre os caminhoneiros, porque ela pode partilhar relatos de suas experiências amorosas com mulheres, da mesma forma que fazem os homens. Em algum momento, você presenciou preconceito dos caminhoneiros em relação a ela?

Brunna Laboissière – Não, mas a câmera também ajudou. Teve uma vez que um caminhoneiro ficou o tempo todo elogiando ela, mas eu senti que ele estava fazendo isso por causa da minha presença. Os outros também. Muitos a respeitam há muitos anos. Outros nem sabem que ela é trans. Até porque ela não se apresenta para as outras pessoas como mulher trans. Se perguntar sobre o preconceito, ela diz que finge que não escuta. Acho que ela acaba criando uma certa proteção, de não ligar e não ser alguém que combate. Ela ignora completamente, tanto que ela nem fala muito. Uma coisa que ela me contou nas primeiras viagens é que outra forma dela resistir é dirigir os caminhões mais potentes. É uma forma de conquista, sabe? Dominar a máquina como algo que possa chamar a atenção das mulheres, como algo que pode encantar. Tem isso de usar o caminhão como uma forma de se afirmar na frente dos outros homens. Aí se cria até um espaço de disputa com eles. Não é só uma questão dela se proteger, mas também funciona como espaço de enfrentamento mesmo.

 

REVISTA SOBRECINEMA