Conversa com Affonso Uchoa sobre A vizinhança do tigre

25 abr. 2016

Por Érico Araújo Lima

"VER A VIDA E O CORPO PERIFÉRICO MORANDO DENTRO DO CINEMA"

Retomar um filme permite sempre o acesso a novas camadas, uma travessia por outras veredas, uma conexão com outros mundos. A vizinhança do tigre, de Affonso Uchoa, é um filme que, especialmente, tem na densidade da sua elaboração e da vida que carrega na sua matéria, a potência de se alterar e de produzir alterações no mundo em volta dele. O filme tem circulado nos últimos meses em salas de cinema, depois de ter traçado encontros com modos de ver junto em vários festivais. Na ocasião da estreia na Mostra de Cinema de Tiradentes, o Sobrecinema publicou um texto inicial, ainda bastante tomado pelo impacto gerado pela relação com essa experiência singular. Revisitar uma vizinhança, então: eis uma tentativa de reelaborar um contato. Mas a estratégia vem também como percurso em conversa. Propomos ao realizador Affonso Uchoa essa retomada das imagens, a partir de algumas linhas de força que nos aparecem agora. A partilha desse reencontro com a vizinhança, com as vidas, com os gestos e com os corpos se dá em torno de questões como devolução, avizinhamento e formas de ficção.


- Uma das dimensões desse lançamento nos cinemas que me ocorreu tem a ver com certa ideia de devolução. Digo isso no sentido de que esse filme, com um processo longo, que traz na matéria dele também a construção de uma relação, agora vai ser colocado, de um modo mais amplo, para se relacionar com uma comunidade de espectadores. É como se vocês devolvessem ao mundo algo que foi pesquisado, vivido, elaborado durante um tempo. E além dessa devolução que acontece agora, existem muitas formas de devolução que talvez esse filme solicite: penso, especialmente, em como deve ser ver o filme em Contagem ou em outras regiões de cidades brasileiras, em que as questões do Vizinhança podem encontrar ressonâncias afetivas muito singulares. Dizendo então mais concretamente, eu te perguntaria: como é pensar essas muitas formas de devolução desse filme singular, tanto agora nas salas de cinema, quanto em várias outras possibilidades de exibição que ele pode ter?

- “Devolução” é um termo interessante. Me lembra uma frase de um músico de que gosto, Jeff Buckley, quando lhe perguntaram o que queria fazendo o que fazia: “devolver à música um pouco do tudo que ela me deu”. Mas não sei se o termo dá conta de tudo que está em jogo nessa distribuição propriamente dita (e mesmo em outras exibições, diria “paracinematográficas”). Lançar o filme comercialmente pé faze-lo lutar ombro a ombro com os demais filmes do mercado pra ser visto. Nesse sentido, mais que uma devolução, a distribuição do Vizinhança teria o sentido de uma infecção, uma contaminação no circuito de cinema comercial. Não só por ser um filme nacional, independente, de baixíssimo orçamento ocupando tela num mercado completamente viciado pelos narcóticos de baixa voltagem de Hollywood e da Globo Filmes. Mas, principalmente, por ser o filme que é: cru, direto, prenhe de vida. As pessoas retratadas no filme não são o espectador de cinema usual. No Brasil de hoje, doente da tensão pela diferença, fazer o público de classe média ver a vida da periferia já é uma ação de choque, por mais que esse público seja disponível pra ver outra realidade (e quem vai ver oVizinhança certamente é). Esse confronto com a diferença me parece ser um trunfo do lançamento do filme. Gosto de pensar que ele é positivo.

Já as exibições fora do circuito comercial dependem de ações muito diversas. Não é possível pensar num sentido e numa recepção global. Mas, sem dúvida alguma, elas me interessam. O verdadeiro público do filme, a plateia que melhor lidaria com ele, que mais conhece o universo que gerou suas imagens, a periferia, em suma, muito raramente o vê. Na verdade, a periferia raramente vai ao cinema. Gostaria de devolver (ou mesmo ofertar) algo mais a periferia, nem que fosse mais do meu filme. Mas essa é uma tarefa maior, ancestral, que o Brasil tem a resolver.

- Ao ver A vizinhança do tigre, fico muito tocado por essa palavra que está no título e que também está no corpo do filme: “vizinhança”. Chego a pensar que ela poderia ter muitas dimensões. E queria te perguntar sobre, pelo menos, duas dessas dimensões: a vizinhança como território e a vizinhança como método (filmar se avizinhando, talvez poderia ser dito assim). Que tipo de vizinhança geográfica você acredita estar em cena? E sobre o outro sentido da palavra, como você acredita ter se materializado na imagem um avizinhamento que foi marca do processo? Dizendo de outro jeito: olhando em revisita esse filme, como pode o cinema se tornar vizinho dos sujeitos e dos espaços filmados?


- O processo do filme de fato contou com esse “avizinhamento” progressivo dos seus personagens. Comecei filmando alguns amigos meus que me deixavam ir nas suas casas e os observar ali, em meio às suas tarefas cotidianas. O começo do filme era completamente sem roteiro, muito observacional. Eu visitava e filmava esses amigos. Pra conhecê-los melhor, pra criar uma intimidade com eles e pra que eles fossem habitando a imagem pouco a pouco. Dessa proximidade veio o corpo. Conhecendo eles, notei o quanto o corpo deles falava, era vivo, vibrante. Sinto que no filme tem esse outro "avizinhanemtno", que é do corpo mesmo dos atores e, por extensão, dos jovens de periferia: seus gestos, olhares, linguagem, beleza: tem muito disso no filme. Precisei aprender a filmar o corpo daqueles moleques. Soltei a câmera, o texto, o processo: eram indomáveis, que o filme fosse junto com eles e não o contrário. Ao fim de tudo, o que mais me assusta não é uma “vizinhança”, mas uma coabitação: os meninos morando (bem à vontade, diga-se) dentro do filme, na imagem. Ver a vida e o corpo periférico morando dentro do cinema era o maior objetivo do filme. O alcançamos.


- Finalmente, queria fazer duas perguntas mais voltadas para o recurso à ficção. Que tipo de possibilidade de relação, com o outro e com o espaço, ela permite, ao ser solicitada para dar forma a experiências vividas (a algo de um real também)? Junto a isso, queria te perguntar sobre essa ficção muito particular que está em jogo no filme, uma ficção que me parece descentralizar os lugares, tensionar um pouco com a posição de um protagonista e traçar uma circulação muito livre pelos personagens. Qual a singularidade dessa ficção de A vizinhança do tigre, em termos de uma dramaturgia e de uma montagem de descentralização (se pudermos falar assim)? Por que esse recurso era importante para o filme?

Pra mim, a ficção permite sonhar. No Vizinhança, ela possibilitou a gente a fazer cinema e ao Juninho imaginar um destino diferente do que sua vida real lhe reservava. O Juninho real, que morava no bairro Verônica, não fugiu pra parte alguma. Não deixou um bilhete pra mãe. Não daquela forma, não naquela vez. Há no Vizinhança uma coisa que acho muito forte que é usar a ficção como instância de reflexão do real. Os atores tem contextos, histórias pessoais e tudo isso era mobilizado nas cenas mais ficcionais. O filme fez Dona Isaura oferecer o copo de água ao Juninho. Ela faria aquilo, mas não tinha feito ainda. Sugeri, ela fez. Eu senti que ela queria dizer aquilo ao filho, eu senti que Juninho talvez não a ouvisse. Criei uma cena pra que algo fosse dito e ouvido. A cena é ficcional, mas o sentimento é real, vivo. 

Desde o princípio quis explorar no cinema algo parecido com a forma com que o escritor norte-americano John dos Passos organizava seus livros. Queria um “romance coletivista”, com várias histórias e fragmentos irregulares de vida contando uma história maior, a do seu próprio tempo e país. No Vizinhança, há um pouco disso: passamos por cinco vidas. Por algumas, de modo bem breve, quase episódico. Em outras, nos detemos mais tempo. Em todas, saímos sem a conclusão final: captamos uma passagem, uma fagulha da vida dos personagens. 

 

REVISTA SOBRECINEMA