Corpo delito (2017), de Pedro Rocha

29 jan. 2017

Por Camila Vieira

A OUTRA FACE DO "BANDIDO" E A NARRATIVA DA INTIMIDADE

Em que é possível pensar quando falamos de um corpo delito? Não se trata de um corpo qualquer, mas um corpo que cometeu infração à lei e se torna sujeito ao caráter corretivo e repressivo penal. Mais ainda, no caso de Ivan, um corpo que não deixou de ser vigiado, controlado, submisso à reclusão e à punição, mesmo de forma velada, dentro do estatuto do regime semi-aberto. A imagem deste corpo na periferia costuma ser capturada pela mídia, em programas policiais, mas sua narrativa íntima não chega a ser visível. No filme, a visibilidade deste corpo não é da ordem do sensacionalismo, mas do encontro responsável com sujeitos, cujos modos de vida são atravessados pela violência.


A aproximação de um corpo delito convoca dois movimentos: 1) Enfrentar o medo do sujeito filmado e ganhar intimidade para que as cenas aconteçam, sem ser dominado pelo pavor de uma cidade (que carrega a sombra do imaginário da “Fortaleza apavorada”, que é alimentado por classes favorecidas e mantido pela atuação coercitiva de políticas públicas de segurança); 2) Não explicitar a violência, por entender que ela já é exposta em excesso pela mídia, e estabelecer outra relação com o dia a dia destes personagens. Isto não quer dizer que o filme prescinda da violência, seja nas tensões dos relatos – a conversa de Neto sobre o tiroteio e sobre a abordagem policial –, seja em cenas em que o imponderável nos atinge – o baculejo durante uma festa, a visita de Fanta ao cemitério para limpar o jazigo do filho (pela foto, um rosto ainda jovem). São corpos que convivem diariamente com a ameaça da morte. Não há outra alternativa. Não há outro destino. “Ou é cadeia ou cemitério”, diz Ivan, em conversa com a psicóloga.


Não sabemos os motivos pelos quais Ivan ficou preso durante oito anos. O filme concentra sua dramaturgia no modo como o personagem convive com o controle judicial permanente e sua relação com o trabalho, a família e os amigos na Favela dos Índios. Na Fábrica Escola, Ivan deve cumprir uma rotina mecânica de trabalho, onde tantos outros realizam a mesma tarefa. Por ser obrigado a usar uma tornozeleira eletrônica (que fica apitando constantemente), a mobilidade dele está circunscrita ao espaço da casa. Há um paralelo entre a limitação de movimento da perna atravessada por um tiro (Jefferson) e a perna monitorada por uma tornozeleira (Ivan): diferentes imobilidades marcadas simbolicamente pelos efeitos do crime e pela espera de uma liberdade no futuro.


Dentro de casa, Ivan vê TV, conversa com amigos, interage com a mulher e a filha, canta músicas de funk e forró. São situações cotidianas que, de algum modo, não chegam à vigilância da justiça, restrita friamente à tabela de minutos que escaparam do registro de monitoramento da tornozeleira, permanecendo assim longe das nuances deste modo de vida. A distância fica nítida nas audiências, em que a promotora, a defensora pública e o juiz procuram entender por qual motivo Ivan não se adaptou, não respeitou as regras. O juiz questiona se existe algo melhor que isso, dando a entender que a rotina na Fábrica Escola é melhor que a casa onde mora, “quase um mundo perfeito”. O julgamento é intimidador e lembra as situações dadas nas audiências de dois filmes da Maria Augusta Ramos, Justiça e Juízo, que explicitam as estruturas de poder do sistema judiciário e penitenciário. Ivan não é o corpo dócil, que se adequa ao sistema de sujeição, de produtividade (ele falta ao trabalho, passa por noites mal dormidas e burla a vigilância com papel alumínio).


Por outro lado, nas interações cotidianas, o filme permite dialogar com outra referência mais próxima, A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa, principalmente nos momentos em que Neto entra em cena, como força de escape diante da imobilidade: ele dá notícia sobre os que quebraram a pulseira (tanto no início quanto no final), zomba da “tartaruga no pé”, pinta o cabelo, dança na boate, prova tênis no shopping, joga pelada na praia, canta com Ivan. Neto poderia facilmente interagir com os personagens de A Vizinhança do Tigre, por se permitir aos momentos de maior ociosidade lúdica.


No entorno de Ivan e Neto, estão as mulheres, que procuram tomar as rédeas diante da precariedade da vida: Gleice insiste que Ivan tenha paciência e não o deixa sair à noite, a mãe de Neto pede pra ele tomar rumo na vida, a mãe de Ivan insiste que só depende dele voltar a passar o Natal com a família (talvez este seja o momento de relação mais difícil, porque revela a distância entre os dois e quase sem esperança). São mães que insistem no cuidado e atenção permanente, diante de uma realidade em que a morte é presença constante. É muito tocante a cena em que Fanta, amiga da Gleice, fala sobre o sonho com o filho ainda vivo e Gleice desabafa que sonhou com o aviso de morte do Ivan.


Mesmo com a ameaça da morte, o filme vislumbra uma possibilidade de futuro ao final, quando permite que Neto e Jefferson observem a cidade do alto de um prédio em ruínas (é uma sequência que cumpre a força simbólica de uma subida dos escombros para uma possibilidade de respiro, mas sem tirar os pés da precariedade). Aquela passagem progressiva dos casebres no matagal para os prédios luxuosos torna visível a profunda desigualdade social na cidade, que está implicada na vida dos personagens em primeiro plano. A última frase de Neto - “Para pular de paraquedas, tinha que ser do prédio mais alto” – nos deixa em momento de suspensão e pensando no destino destes personagens.

 

REVISTA SOBRECINEMA