Retorno e diferença

April 3, 2014

Eles voltam, de Marcelo Lordello

 

Por duas vezes, um carro deixa Cris à margem de um caminho que ela deverá percorrer. Mas são dois momentos já de naturezas bem distintas. Um é logo no começo, e é justo o mote de Eles voltam, quando a garota e o irmão são deixados pelos pais na estrada, provavelmente como uma espécie estranha de castigo. Na outra ocasião, Cris já passou por uma jornada bastante intensa e decide mergulhar no centro de Recife com a amiga do colégio. Agora o que está em jogo é uma escolha de ir ao encontro do mundo, de se deixar atravessar por ele: duas garotas que se jogam na cidade, à revelia de informar quem quer que seja, num percurso independente. E se o filme iria seguir Cris quando deixada na estrada lá no início, sendo a câmera por um tempo a única companheira dela, no segundo momento é o próprio filme que a deixa ali, porque a câmera segue agora no carro, criando uma distância progressiva e deixando o desenrolar daquela aventura para o fora de campo.

 

Parecem dois lugares bastante singulares de uma relação dos personagens com o mundo e do próprio corpo-cinema com os seres que filma. Existe um processo que separa esses dois instantes. É um percurso longo em que a protagonista lida com descobertas e em que o próprio filme se engaja numa pesquisa de caminhos, ora criando situações de grande força expressiva, ora abrindo frentes que não consegue desenvolver. Estamos primeiro naquela estrada sem saber muito bem por que os pais teriam deixado os dois filhos ali, abandonados. Existe algum mistério nisso, uma indefinição, uma história que é, inclusive, difícil de ser contada para as pessoas que vão sendo apresentadas ao que aconteceu. A sequência de abertura enfatiza a presença de um corpo que ocupa um espaço isolado e opressivo, um campo visual cortado a todo instante pela velocidade dos carros, um campo sonoro que sofre também a intervenção do barulho que os veículos fazem ao traçarem o deslocamento. Esse corpo, quando decide se colocar em movimento, passa a desencadear relação e encontro. Ele se projeta no espaço e cria redes de contatos e de acolhidas, cada uma delas segunda uma modulação própria.

 

 

 

Parece haver um desejo em lidar com o que surge nos encontros singulares entre seres de universos distintos, sobretudo demarcados a partir da ideia de uma distância social. A “pele branquinha” de Cris é comentada quando a garota é recebida na primeira casa, as realidades são comparadas quando o trabalho de organizar casas de praia de pessoas de classe média é colocado em cena. O desenrolar das ações tenta evidenciar as descobertas da protagonista, principalmente quando ela está em contato, de algum modo, com um outro de classe. Em muitos momentos é com sutileza que o filme costura esses contatos, com trocas de olhares, conversas banais sobre o cotidiano, percursos em que a marcação de lugares se torna muito mais um desencadeador da cena que o estruturador de certa discursividade. Outras vezes, a vontade de pontuar de forma mais clara algumas ideias leva a abordagem a um campo de maior relevo para uma tese organizada, sobretudo na parte do retorno, quando a dispersão dos caminhos do filme se acentua.

 

Em torno de uma mesa, de uma refeição compartilhada, a obra trabalha a composição de uma presença. Os seres começam a se conhecer. Cris está em um outro espaço, experimenta outro sabor, outros ritmos. Partilhar a experiência de comer junto, de deitar e dormir na mesma cama. No assentamento, que se torna a primeira das acolhidas da personagem, o que se constrói é, sobretudo, uma experimentação do que pode surgir entre os que estão em cena, um reverberar das singularidades de cada um em cada um, em espalhamento de vozes e de gestos pelo corpo do filme. Parece decisivo aqui que a própria equipe também ensaia uma relação, tenta promover uma operação em que esteja mais próxima daquela comunidade que decide filmar, trabalhando no âmbito da ficção um encontro possível, mediado por Cris. Talvez uma questão seja sempre como afirmar com mais radicalidade a construção com, já que muito do que se desenha não deixa de partir de uma consciência muito forte de uma dramaturgia que se pretende constituir. Mas se trata sempre de um movimento repleto de fluxos e refluxos, um lugar arriscado que a obra encara.

 

Diante do duplo abandono, tanto dos pais quanto do irmão, os caminhos se tornam tanto mais instáveis quanto não são vistos muitos horizontes para um restabelecimento da situação anterior. Mas talvez já não exista volta possível, pelo menos não uma estabilização no que se tinha antes. Uma provável zona de conforto é vislumbrada quando uma conhecida da família é encontrada na casa de praia dos pais, como se Cris ainda preferisse retomar um contato com aqueles que teriam, supostamente, algo mais semelhante ao seu universo. Mas nada é tão simples, e certa indecidibilidade permanece. É que talvez jornadas de abertura ao mundo precisem lidar sempre com uma zona de inconstância e de insegurança.

 

São caminhos de Cris e da escritura fílmica, tanto um quanto outro elaborando tateios e pesquisas, experimentando a vida e o que ela pode desencadear como processo de diferenciação. Há aquela estrada em extensão no início, com margens que parecem ainda não apontar para muitas formas de vida. Existe depois uma cidade repleta de possíveis, que será preenchida por desejos de duas garotas. Não existe trajeto sem incerteza. Por isso, é fundamental que a segunda imersão da protagonista nas intensidades e nos volteios do mundo esteja no fora de campo do filme. Porque ao cinema existe todo um mundo que escapa, toda uma infinidade de cenas que resistem.

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