A escuta da cavidade dos ossos é mais veloz que a dos ouvidos

January 6, 2017

"Como a sensibilidade do artista, cuja razão de ser é exprimir a relação de seu eu com o mundo e que recebe até o mais profundo de seu ser as impressões exteriores, poderia evitar um questionamento do mundo e de seu eu e de suas impressões, uma vez que conceber uma forma constitui justamente um ato de acordo ou recusa?" 
Douchet, A arte de amar.

 

Recentemente lançamos O Último Trago e o filme suscitou uma reação da crítica que não é nova em relação ao nosso trabalho, pois vem acontecendo desde Estrada para Ythaca, e que agora me chega com mais peso (talvez pela idade em que me encontro, talvez pelo acúmulo de equívocos em relação ao nosso trabalho). As palavras usadas agora são (retiradas de um texto da cinética): autoenclausuramento, encastelamento, esquiva de enfrentar o mundo. Antes já foi (informalmente): meninos de apartamento, autistas, anjos (intocados), filhinhos de papai, e por aí vai. Talvez por estarmos tão jovialmente expostos em nossos filmes, as pessoas se sentem mais à vontade de nos enquadrar, impensadamente (impiedosamente), e sempre de um jeito confuso entre um discurso sobre o filme em questão e um discurso sobre os diretores e suas intenções. Alguns até chegaram ao ponto de dizer que não tínhamos como continuar a fazer filmes coletivamente e “sem grana”, que não tínhamos como nos sustentar dessa maneira (o que ao meu ver não é nada diferente daquela pessoa na rua que ao ver uma manifestação artística acontecer fica revoltada e diz “Vai trabalhar, vagabundo!”).

 

Quando lançamos Os Monstros recebemos reações muito fortes nesse sentido. Escutamos pessoas que não se conformaram em terminarmos o filme “enclausurados”, tocando música de improviso dentro de um apartamento. Fomos chamados de ingênuos. E depois nos disseram que não tínhamos que ser os atores desse filme etc.

 

Bom, vou expor um pouco o nosso percurso em relação a essa decisão de filmar essa cena num apartamento. Escolher onde filmar essa cena final d’Os Monstros foi bem difícil, pensamos em muitos lugares e o sentido narrativo (e político) que cada lugar nos traria, mas ao final decidimos que o mais importante era a própria música (sendo ela também um lugar e uma narrativa). Pra ressaltar isso, nós, músicos e atores amadores, precisaríamos de um lugar que permitisse o máximo de concentração. Essa cena foi a única que precisamos de dois dias pra filmar, pelo grau de dificuldade, pelo imenso esforço físico que a música pedia. Outro aspecto da cena que pesou nessa decisão foi o desejo do Ivo encontrar o jeito certo de filmar os nossos corpos tocando. O trabalho entre câmera e músicos nessa cena é crucial, e foi bem difícil de elaborar, não podíamos ter distrações, e por isso esvaziamos boa parte da sala. Quanto menos elementos cênicos melhor, foi o que concluímos, pois uma parte considerável da expressão cênica dessa música vem dos corpos, de como eles dançam e suam (qualquer um que já tentou filmar isso sabe que não é nada fácil). E por último, sabíamos que estávamos fazendo um filme destinado pra sala de cinema, tínhamos a convicção de querer atingir e desestabilizar o lugar do espectador de cinema com a música de improviso. Afinal de contas era um filme sobre a música em seu lugar de confronto com o mundo, a partir da sala de cinema (era a nossa pequena vingança: forçar o espectador a escutar 15 minutos de música de improviso com a desculpa de que ele estaria vendo um filme).

 

 

***

 

 

Antes de filmar Os Monstros, vivemos uma história intensa com a música de improviso. Vou lhes contar um pouco dessa história, pois pra gente, a música foi uma forma de habitar e conhecer o mundo, mas também de se posicionar diante dele.

 

Aos dezenove anos, Felipe Cohen, Luiz e eu resolvemos ir tocar esse tipo de música no centro do Rio (Cinelândia). A nossa intenção era a mesma de todo músico de rua, mas não conseguimos nem 5 centavos ao final do dia (não pagamos sequer nosso transporte). Frustrados, desistimos dessa ideia e resolvemos aceitar tocar numa festa enorme numa mansão em Búzios (coisas que acontecem quando se é muito jovem e despreparado). Os ricos, sócios de um clube de golfe, obviamente nem olharam pras nossas caras (realmente não existíamos, é o que a indiferença deles nos dizia), mas um cachorrão não parou de latir ao som de sax do Luiz, criando no momento uma fúria amorosa entre os dois e nos dando uma razão pra continuar tocando. O show acabou durando 40 minutos. Terminamos a noite completamente bêbados, com o nosso amigo Felipe jogado ao chão com o cachorrão, os dois abraçados, enquanto nosso amigo repetia: “você é o único que nos ama”. Foi uma situação cômica, mas uma das mais tristes que já vivi também. Lembro dela com lágrimas nos olhos.

 

Um tempo passou e arranjaram pra gente um café no Leblon pra tocar 1 vez por semana. Conseguimos nos manter lá por dois meses, mas finalmente fomos expulsos por fazermos uma música feia demais. Nessa época já tínhamos desistido da possibilidade de fazer cinema, e agora era a música que não estava mais dando certo também. Mas por causa do Ivo, fomos parar em Fortaleza, onde tudo se tornou possível de novo. Lá voltamos a trabalhar com cinema (dando cursos livres, montando e fazendo um filme em Sabiaguaba), mas também renovamos o contato com a música. Uirá Dos Reis, Eduardo Scarpinelli, Luiz e eu formamos a 1a banda de noise improv da cidade de Fortaleza, com o nome de Mirella Hipster. Tocamos em lugares variados que fomos encontrando: na ocupação da 1a turma de cinema da Vila das Artes, em praça pública (após a exibição gratuita de um filme feito por 18 realizadores na Alumbramento), num evento de moda no Mercado dos Pinhões (com Scarpinelli usando um vestido de 5 metros), em 4 teatros, em 1 lote vago (tocamos 12 horas ininterruptas) e, finalmente, no Disney Lanches, um boteco videokê no centro (jurávamos que íamos levar porrada, mas nada aconteceu). Depois dessas experiências com a música de improviso em lugares públicos de todo tipo é que finalmente resolvemos fazer Os Monstros. O nosso filme anterior, Estrada Para Ythaca (estreado 5 meses antes de começarmos a filmar Os Monstros), nos deu força pra encarar o desejo de fazer esse filme e expor cinematograficamente aquilo que vivemos em nossas vidas. Os nossos corpos, que tocam ao longo do filme, são autênticos, carregam a marca de quem viveu essa música que é, na maior parte do tempo, totalmente ignorada, desprezada e pisada, mas que pra gente foi um “healing force” libertador sem o qual não teríamos sobrevividos.

 

Os Monstros foi feito. O filme foi exibido e inspirou amigos que estavam começando a fazer cinema. Alguns vieram falar com a gente. Pra gente, foi motivo de muita alegria. Depois de muito tempo e trabalho, nós finalmente participávamos da roda viva do cinema. Muitos filmes que hoje são pensados pela crítica e academia foram influenciados diretamente por nossos filmes. Nós sempre tivemos o desejo de mobilizar o mundo diante de nós. E digo mais, se nós não tivéssemos atuados, não teríamos influenciado esses outros filmes de forma tão direta e forte.

 

 

***

 

 

A história acima é apenas uma entre outras, eu a escolhi pra tentar reverter um pouco a nossa situação diante de uma parte da crítica (que vem de diversos lugares, não só da cinética. Na verdade, vem principalmente dos debates no festival de cinema de Tiradentes. Foi nesse festival em que boa parte do que falo aqui aconteceu. Existem outros festivais, mas nenhum foi tão longe nessa relação entre realização e crítica. E essa relação, apesar de problemática, foi plena e fértil, no sentido de contemplar profundamente o lugar do artista e da crítica no Brasil.). Mas também espero suscitar um questionamento mais aberto e livre sobre o lugar do pensamento crítico em relação ao cinema feito hoje no Brasil. Acredito que temos muito a ganhar ao se colocar mais frágil diante do que se produz (sejam filmes ou textos). É difícil tomar essa decisão de se expor, de me desnudar diante de você que me lê, mas se faço isso é por acreditar que a experiência pessoal é sempre atravessada por todo um contexto mais amplo, e vice e versa. Estamos conectados através do que é íntimo e desconectados pelo genérico (mídia, publicidade). Se somos tudo não somos nada, se somos íntimos não somos tudo. A intimidade ainda não foi apropriada pelo genérico (pelo menos é o que quero acreditar).

 

Pra terminar. Tudo que fizemos foi com o desejo de se misturar com o que estava ao nosso redor, de participar (inventar) de questões coletivas. O que faz o coletivo pulsar é o espaço pra diferença, pois é a diferença que pode nos surpreender, nos fazer sentir o que não fomos educados para sentir, amar o que não nos disseram para amar e destruir o que não nos foi permitido destruir (a bem dizer, o medo e a mesquinhez). Pra gente, colocar num filme uma cena de 15 minutos improvisando no sax de bambu e na guitarra é um gesto visceral, que parte da nossa experiência, de histórias que vivemos, e que integra essa diferença à nossa realidade e ao nosso trabalho (não estamos fora ou isolados). Foi necessária muita história (insistência e convicção) pra chegar a fazer e exibir esse filme. E no entanto sempre recebemos olhares desconfiados, muitas vezes cínicos e outras vezes preconceituosos.

 

Nós vivemos na instabilidade que nossos filmes nos causam, sem nunca saber o que será do mês seguinte, nós não ganhamos salário fixo, não sabemos se vamos conseguir financiar um próximo filme, e se conseguirmos não saberemos até quando. Estamos fragilmente expostos aos mecanismos da nossa realidade, encontramos maneiras de não sucumbir, de mudar o estado das coisas, mas ainda assim estamos fragilmente expostos. Pagamos esse preço que é alto, mas pela possibilidade de livremente exercer a diferença amorosa e criativa dentro de um mundo que sabe lidar bem pouco com isso. Sei que o que fazemos não é útil para todos e por isso procuramos e criamos uma verdadeira situação de incômodo. Os nossos filmes nunca criaram unanimidades monstruosas que se apropriam da realidade, idealizando-a e criando ilusões castradoras da experiência humana.

 

Durante dez anos, a Alumbramento, como um grupo, fez filmes, ano após ano, acreditando na força de um trabalho criativo horizontal e aberto, mas o que se sabe sobre o nosso trabalho ainda é muito pouco. Me chamem pra conversar, me chamem pra passar esses filmes nas suas aulas.

 

 

PS: por favor, divulguem esse texto se acharem relevante. Podem publicar em outros lugares se acharem uma boa. Não tenho emails de muitos colegas da crítica e da academia, se possível, peço que enviem aos seus amigos e colegas, ou quem quiser.

 

 

 

 

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