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Artesão da superfície

A dança da realidade (2013), de Alejandro Jodorowsky


O novo filme de Jodorowsky começa com um menino de peruca correndo e entrando em um circo, a cortina voa e bate na câmera. O plano parece a apresentação não só do filme, mas do próprio cinema do diretor: trata-se de um artista da posta em cena, do espetáculo, mas não o de Hollywood e sim o do picadeiro, ao mesmo tempo que o da viagem e da imersão em outro universo. Um universo que é tratado com toda a pompa e nunca com mais pompa do que o do picadeiro.



Reluzente pelo efeito, mas modesto no seu modo de produção. Sim, é um filme que custa caro, mas provavelmente bem mais barato do que seu clássico A Montanha Sagrada (isso se ele tiver pagado metade dos figurantes). Independente do orçamento, é o tipo de efeito cênico que distingue o cineasta chileno: seu truque evidencia a própria engrenagem, fazendo crer que se um personagem voasse provavelmente veríamos o fio que suporta o Super-Homem. O encantamento encontra-se aí, por uma certa economia da mise en scène, o que não é apenas uma questão econômica. Trata-se de um modo de produção, mas também de um efeito sensível. Jodorowsky brinca com as superfícies, com as possibilidades de jogo com o sensível, com artificialidade do truque e sua potência dramatúrgica.


Uma das cenas mais interessantes de A dança da realidade é justamente aquela em que o Jodorowsky criança tem seus longos cabelos loiros cortados: trata-se de uma peruca, e isso grita aos olhos desde o primeiro plano. Quando o barbeiro apara a primeira madeixa, o menino desata a chorar e o cabelereiro em seguida puxa a peruca de sua cabeça. Desfazer o pacto de encenação? O pacto continua lá, na verdade, o que se constitui, não sem um certo senso de humor, é uma torção nos seus limites, como se dissesse: ei, isso é arte, aqui pode tudo. O mundo continua mágico, mesmo sem realismo ou transparência. Pura opacidade. Tanto é essa sua potência que, cenas em que se usam efeitos especiais ‘’modernos’’, como a que chove peixe acabam parecendo um tanto afetadas, lembrando a vulgarização dos efeitos digitais comuns no cinema de fantasia norte-americano.



Quando fui assistir o filme no Festival do Rio não sabia tratar-se de uma biografia. Quando vi o diretor em cena abraçando a criança, não entendi o jogo dramático temporal, mas o fato daquele personagem-narrador me parecer totalmente alheio a narrativa e nela se intrometer me parecia mais potente do que a carga sentimental que acaba possuindo a cena desse Jodorowsky vovó abraçando sua versão garoto. Jodorowsky me desmente pouco depois quando, em outra sequência, faz uma espécie de dança com o mesmo menino em um momento de desespero de sua infância. Abraço sentimental, torção de tempo proporcionado pela ficção, justamente pelo que ela tem de não realista. Beira a cafonice e como algumas delas não deixa de ter sua plasticidade e carga expressiva. Cafona e chorei. Sou cafona. O que é cafonice?



Parece-me que o diretor encontra-se justamente nesse abismo entre uma espécie de autoajuda, talvez o que ele chame de psicomagia, e o potencial irruptor e disparador de sentidos de seu jogo de encenação. Um abismo em dança, nem sempre pendendo para um, nem para o outro, mas sendo possível talvez nos dois sentidos.


O começo do filme é tão deliciosamente absurdo que me causa especial irritação que logo que a mãe chama o garoto de 'pai' o filme não demore meio minuto para explicar a 'razão esse contra senso. Se essa peculiaridade é irruptora da ordem e de qualquer resquício de cinema naturalista, o império de logos retorna dando uma explicação para o estranho apelido do filho. Felizmente, entretanto, não há justificativa para sua fala cantada e ainda é possível voar, como diria Glória Pires. É a instauração de outros possíveis, papel da arte mais do que representar a realidade. Me deu vontade de ouvir ópera ou de falar cantando também no resto do dia. Pamela Flores, a soprano que interpreta esse papel e diz todas suas falas em forma de canto operístico é um dos pontos altos da Dança, assim como os dois olhos enormes, digo, o garoto que interpreta o jovem diretor.


O cinema de Jodorowsky encontra-se ou desencontra-se nessa encruzilhada entre o simbólico e o absurdo, uma hora amarrando todos os sentidos e em outras constituindo um mundo próprio, outro, que funciona segundo suas próprias leis e não necessariamente representa a realidade. Complica.


Em determinado momento, o filme deixa o foco do próprio Jodorowsky para contar a história de transformação de seu pai, de comunista totalitário até sua transformação em pai compreensivo através de uma fantástica e absurda viagem de cunho político, mas que serve basicamente de redenção para o personagem. Um tanto de simbolismo estranho na mais antiga fórmula de contar história. Que dança estranha.