Memória do cinema

September 5, 2013

Casa de imagem (1992) e Homem de projeção (1992), de Kleber Mendonça Filho e Elissama Cantalice

 

 

Em tempos de expansão e consolidação dos cinemas de shopping nas capitais brasileiras, é revigorante assistir aos curtas Casa de imagem e Homem de projeção, documentários que versam sobre o fechamento dos principais cinemas de bairro de Recife. Realizados por Kleber Mendonça Filho em co-direção com a jornalista Elissama Cantalice no início dos anos 1990, os curtas são projetos de conclusão do curso de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

 

Ao partir de uma proposta de pesquisa universitária captada em formato VHS, U-Matic e Super-8, os curtas se servem de uma série de estratégias fílmicas próprias do documentário tradicional – entrevistas em padrão talking heads, fotografias antigas, recortes de jornal, trechos de filmes de arquivo e de programas radiofônicos – para dar voz a quem fez parte desta história e para resgatar a memória de alguns cinemas de rua de Recife.

 

Nos depoimentos de Casa de imagem, é constante a reflexão sobre a mudança do comportamento do público que consome cinema. “Hoje se vai ver um filme. Antigamente se ia ao cinema para cumprir um ritual, criava-se um estado de espírito”, compara a primeira voz-off. O portuário Fernando Tenório recorda uma época em que o cinema era frequentado como ponto de encontro e opção barata de entretenimento. O jornalista Ivan Soares explica o desaparecimento dos cinemas de bairro, como fruto da exigência de um público por salas mais confortáveis e melhor equipadas.

 

No entanto, mais interessante que o tom nostálgico e comparativo de boa parte das falas, Casa de imagem deixa de ser burocrático quando se aproxima das relações afetivas de seus entrevistados com as salas de cinema, como é o caso do projecionista Alexandre Moura, que revela estar prestes a fechar o Art Palácio com “chave de lágrimas”. Alexandre é o personagem principal de Homem de projeção. Neste curta, ele conta a experiência de assistir a O poderoso chefão durante quatro meses em sua cabine – tempo em que o longa ficou em cartaz – e de ter a liberdade de cortar cenas de nudez dos filmes diretamente dos rolos das películas.

 

Embora pontuais e breves, os relatos inusitados de seu Alexandre são o substrato mais afetivo de Homem de projeção, além das tomadas em travelling pelos corredores e dependências do Art Palácio. Este mesmo tipo de plano aparece em Casa de imagem, quando a câmera passeia por interiores de novos estabelecimentos antes ocupados por cinemas de bairro. Às imagens flutuantes de igrejas, supermercados e galpões abandonados, sobrepõe-se a locução de antigos programas de rádio que anunciam a programação de filmes da época em que ali funcionavam os cinemas. É quando a memória pode exercer evidente e necessário posicionamento político.

 

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